– por Bruna Luiza

Imagens de um jovem, nu e preso a um poste, no Rio de Janeiro, circularam nos últimos dias na internet. A história trouxe à tona diversas reações, mas mais do que isso, abriu nossos olhos para uma parcela significativa da população que vem sendo marginalizada, ignorada e mal tratada. No sentido formal, marginal é todo aquele que é posto à margem da sociedade, que é retirado do contexto de privilégios ou oportunidades. Geralmente alguém é marginalizado por praticar crimes, escolhendo assim colocar-se à margem da legalidade, mas no Brasil um grupo composto por milhões de pessoas — sendo mais exata, a grande maioria da nossa população — é marginalizado diariamente. E que grupo é esse? Se você é um cidadão de bem, que não comete crimes e delitos, que defende a liberdade de expressão e que é contrário à impunidade, você faz parte desse grupo. Como prova disso, basta lembrar se você já foi falsamente acusado de ser preconceituoso, fascista, nazista, malvado, cruel, desumano, etc. Os autores desses caricatos xingamentos pertencem ao grupo de “senhores da razão”, que decidiram pensar por você e censurar abertamente todo aquele que se levantar contra o que eles pensam.

Os senhores da razão (mas pode chamar de “defensores dos direitos humanos” ou de esquerdistas) ocupam espaços importantes, escolhidos estrategicamente para lhes fornecer palanque de propagação de suas idéias. Isso não seria um problema, afinal, todos temos direito de expressar o que pensamos. O problema é fazê-lo como se tais idéias fossem verdades incontestáveis, que devem ser invariavelmente aceitas por todos aqueles que queiram o título de inteligentes, politizados, cidadãos conscientes ou pessoas “de bem”, marginalizando quem discordar. A primeira estratégia é o uso de insultos, que por si só já são capazes de calar grande parcela da população que discorda deles, intimidando-os e chamando-os de “povão ignorante”. Aos que os insistirem no desafio e resolverem, mesmo em meio a insultos, proferir suas idéias e contrariar os senhores da razão, há outros meios de correção: processos infundados, ameaças de violência, ameaças de morte, seguidas de sanções formais, sempre que possível.

Esse é o método que tem sido usado com a jornalista Rachel Sheherazade desde que esta expressou a opinião da maioria da população brasileira sobre o caso do meliante preso ao poste no Rio de Janeiro. Isso mesmo: maioria, pois gostem ou não, as pesquisas são claras em indicar que a maioria da população brasileira é contra a impunidade, é a favor da redução da maioridade penal e é favorável à legítima defesa. A maioria da população não quer mais que os bandidos sejam bajulados e protegidos enquanto os policiais são tratados como monstros, não quer sentir medo ao andar nas ruas, não quer deixar de comprar um celular melhor ou um bom carro — conquistado graças ao trabalho e dedicação — por medo de estar mais propenso a assaltos e roubos. E é essa maioria que está sendo deixada à margem, enquanto os senhores da razão repetem mentiras absurdas incessantemente, na desesperada busca de alguém que neles creia. Nas suas cabeças, se a maioria discorda deles, ela deve ser calada ou manipulada para concordar à força.

Admitir isso de forma explícita, é claro, não é bonito. Assim, é necessário dissimular todos esses fatos horríveis em um discurso enganoso e doce, usando palavras como: justiça social, sociedade inclusiva, consciência social, ações afirmativas. Tudo isso, evidentemente, em nome de um “mundo melhor”. O fato é que os senhores da razão se julgam aptos a indicar o caminho certo para toda a população brasileira — objetivo audacioso, convenhamos. Eles se consideram suficientemente iluminados para representar e falar por todos, mas, na verdade, falam apenas de delírios utópicos, de teorias falidas em nome de um falso altruísmo.

Os senhores da razão também se vangloriam e auto-intitulam defensores das classes baixas, mas, no fundo, querem que a classe baixa — composta de cidadãos honestos, trabalhadores e esforçados, totalmente contrários à vagabundagem e bandidagem — se cale e apenas caminhe no rumo por eles indicado. Querem roubar a identidade do cidadão, querem retirar dele o direito de expressar sua opinião, querem marginalizar a maioria. A censura está acontecendo, e muitos nem sequer percebem. A vítima da vez é a jornalista Sheherazade, mas amanhã poderá ser você. Em uma rede meticulosamente articulada com mentiras e sensacionalismo, um caso de defesa legítima realizada por cidadãos, está sendo distorcido por muitos dos líderes do grupo de senhores da razão. Apesar de ser uma reação exagerada em certos pontos, o decreto lei nº 3.689 de 03 de Outubro de 1941 esclarece que: “qualquer do povo poderá e as autoridades policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito”.

Exemplo da difusão de mentiras realizada pelos senhores da razão pode ser observado nas declarações do deputado Jean Wyllys — membro condecorado do referido grupo. Recentemente o deputado fez questão de manipular as informações, incitando a população contra os “justiceiros”, acusando-lhes de execução sumária, fato que nunca existiu na história em questão. Além disso, Jean Wyllys disse que as próximas vítimas dos “justiceiros” podem ser as mulheres que andam com roupas curtas nas ruas, dentre outros grupos. Curiosamente, o mesmo deputado que defende o direito da mulher utilizar a roupa que bem entender, quebra qualquer princípio da lógica, ao criticar Sheherazade, declarando-se contra o direito de que uma mulher expresse suas opiniões enquanto jornalista. Na visão de deputado, as mulheres podem mostrar seu corpo, mas não suas idéias, algo que poderia indicar certa misoginia por parte do deputado — mas prefiro acreditar que é apenas confusão mental misturada com ignorância.

Se a população brasileira fosse uma grande multidão em procissão e seu futuro político fosse o ponto de chegada, não há dúvida de que à frente da multidão estariam eles, os senhores da razão. Infelizmente, o destino está cada dia mais próximo, e já vemos sinais de sua chegada na censura crescente, na marginalização e silenciamento da maioria e na violência com que reprimem as vozes divergentes. Fato é que, independentemente do nome que você escolha dar ao paradeiro final, os sinais indicam que o que nos espera não é nada bom e que é tempo de dar meia volta e dizer aos senhores da razão: agradecemos por sua tentativa, mas preferimos pensar e caminhar por nós mesmos.

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