Ruth Costas

Atualizado em  23 de maio, 2014 – 05:12 (Brasília) 08:12 GMT
Passageiro em aeroporto (Foto AP)

Segundo a Anac, mais de 70% dos voos para as cidades-sede da Copa ainda não foram vendidos

Faltando três semanas para a Copa do Mundo, quem quiser visitar algumas das cidades-sede durante o Mundial pode se surpreender com a relativa facilidade para comprar passagens ou fazer uma reserva de hotel.

O medo de preços altos, multidões e caos logístico acabou espantando turistas de lazer tradicionais, sem ingresso para os jogos, e praticamente paralisou o turismo de negócios que costuma encher hotéis e voos em alguns destinos do país.

O resultado é que só 26,5% das passagens aéreas em voos para as cidades-sede durante o Mundial foram vendidas até agora segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Além disso, cerca de 45% dos quartos de hotéis ainda estão vazios, de acordo o Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb) – embora em alguns destinos, como o Rio de Janeiro, Recife e Natal, essa taxa de disponibilidade não passe de 20%.

“No caso do setor aéreo, ao menos até agora não tem faltado assento para quem quer viajar nesse período (do Mundial)”, disse a BBC Brasil Marcelo Guaranys, diretor-presidente da Anac, acrescentando que os preços parecem estar adequados.

Até para os jogos em torno da final, no Rio, a ocupação dos voos estaria por volta de 30%.

Guaranys nota o dado curioso de que o destino com maior taxa de comercialização no período da Copa não tem nada a ver com o evento – Campina Grande, na Paraíba, tem voos com 70% das passagens vendidas em função de sua famosa festa de São João.

Mas considerando que, no geral, dois terços dos passageiros de voos domésticos viajam a negócios ou para participar de eventos, segundo a Agência Brasileira de Empresas Aéreas (Abear), não é difícil entender por que 74,5% dos assentos ainda estão disponíveis, como nota Edson Domingues, professor de economia da Universidade Federal de Minas Gerais.

“As empresas, órgãos governamentais e até organizações internacionais parecem ter evitado programar reuniões ou eventos corporativos em cidades-sede com medo de preços altos e problemas logísticos”, explica Domingues.

Ocupação de hotéis

No que diz respeito a ocupação dos hotéis, São Paulo tem a menor taxa entre as cidades-sede em parte em função de sua vocação empresarial, segundo Roberto Rotter, presidente do FOHB (que faz sua pesquisa em redes hoteleiras conveniadas).

hotel em Copacabana | AP

Taxa de ocupação de hotéis pelo país é baixa, com exceção do Rio, Recife e Natal

A média de ocupação hoteleira da cidade para o período do Mundial é hoje de apenas 31% – chegando a 42% durante o jogo de abertura entre Brasil e Croácia.

“Alguns hotéis paulistas já estão fazendo promoções e os órgãos oficiais de turismo do Estado estão preparando uma campanha com diárias promocionais e apelos para os atrativos turísticos da cidade”, conta Rotter.

Em Curitiba, a disponibilidade de quartos ainda é de 44% e em Salvador e Belo Horizonte, de 33%.

Associações do setor turístico e autoridades ligadas ao governo esperam que as reservas aéreas e de hospedagem cresçam bastante com as compras de última hora.

O Fohb, por exemplo, acredita que a média de ocupação dos hotéis chegará a 65% até o início dos jogos.

“Principalmente depois dos resultados das oitavas de final teremos uma maior definição sobre essas reservas, porque os torcedores vão saber quem vai jogar em cada cidade”, diz Leonel Rossi Júnior, vice-presidente de Relações Internacionais da Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).

Mas nenhum dos setores espera que as reservas alcancem os níveis de feriados como o Carnaval – a não ser em destinos específicos como o Rio.

Número de visitantes

Apesar dos investimentos para se ampliar a rede hoteleira do país, a Copa pode decepcionar os que esperam ver o Brasil receber um número de turistas muito maior que o normal para o período.

O próprio Ministro do Turismo, Vinícius Lages, admitiu a limitação do evento nesse ponto em entrevista à BBC Brasil.

Segundo o Ministério, 600 mil turistas estrangeiros devem visitar o Brasil durante o torneio.

Mas no ano passado o Brasil já recebeu 6 milhões de turistas estrangeiros e o período de junho e julho costuma concentrar 10% do fluxo de turismo do ano, como explica Lages.

O caso Londres

O medo de preços altos e confusão no sistema de transportes fez com que muitos estrangeiros e britânicos evitassem Londres durante a Olimpíada de 2012, decepcionando o setor turístico da cidade.

Campanhas da prefeitura de Londres alertaram os britânicos sobre a possibilidade de haver dificuldades no sistema de transporte público durante os jogos e pediram que eles evitassem o centro da cidade.

Os alertas funcionaram tão bem que o jornalFinancial Times, chegou a anunciar “Jogos transformam Londres em uma cidade-fantasma”.

Durante as Olimpíadas, os pontos turísticos mais tradicionais de Londres registraram quedas no número de visitantes de até 35% e nos hotéis não foi difícil encontrar quartos disponíveis de última hora.

No total, a chegada de turistas na Grã-Bretanha caiu 5% durante os jogos – embora os gastos dos turistas tenham crescido 9%.

 

Ou seja, sem a Copa, é provável que o país também recebesse algo em torno de 600 mil visitantes.

Segundo Lages, o que fará do Mundial um sucesso para o setor turístico é o perfil desses turistas.

Os turistas que vem para o Mundial devem gastar em média US$ 5.500, contra US$ 4.000 dos turistas tradicionais, segundo o Ministério.

“Eles também devem vir de uma gama de países mais diversificada, nos quais podemos nos promover”, afirma Lages.

O lento ritmo das reservas, porém, levanta dúvidas sobre o risco de o Brasil experimentar um fenômeno semelhante ao da Olimpíada de Londres, que esvaziou famosos pontos turísticos da capital britânica (Ver quadro).

Dúvidas

“Durante uma Copa ou Olimpíadas, no geral a chegada de visitantes para os jogos nem sempre compensa a redução do número de turistas tradicionais de lazer e negócios – e esse é um risco que o Brasil também irá enfrentar”, afirma Domingues.

Wolfgang Maennig, especialista em economia do esporte da Universidade de Hamburgo, concorda. Para ele, no que diz respeito a economia, o Mundial “costuma ser um jogo de soma zero”.

Já para Leonel Rossi Júnior, vice-presidente de Relações Internacionais da Agência Brasileira de Viagens (Abav), o Brasil deve evitar a decepção de Londres por duas razões.

Primeiro, porque a Copa brasileira ocorre em mais cidades, incluindo algumas que, tradicionalmente, não recebem grande fluxo de turistas – e tem no evento uma oportunidade única de se promover.

Depois, porque em Londres o esvaziamento da cidade foi em parte consequência de uma ampla campanha em que a prefeitura alertou sobre possíveis problemas no sistema de transporte e pediu aos britânicos para evitar o centro da cidade. E não haveria nada comparável no Brasil.

“A Copa pode até ter um efeito limitado no setor turístico no curto prazo”, diz Júnior. “O importante, porém, é que teremos uma oportunidade única de promover o país no exterior.”

Longo Prazo

O Ministério do Turismo também aposta nessa possibilidade: “No total 3,6 bilhões de telespectadores assistirão à Copa e quem estiver no país vai voltar para casa falando bem do Brasil”, afirma Lages.

Já para Domingues “não há como garantir que a imagem projetada pelo país durante o evento será positiva.”

“Se tivermos algum incidente grave envolvendo turistas, por exemplo, o Mundial pode acabar funcionando como uma propaganda negativa do Brasil”, diz ele.

Ele concorda, porém, que os aeroportos e hotéis construídos ou expandidos para o evento são um legado que pode ajudar o setor turístico brasileiro a ganhar fôlego em um futuro próximo.

“Certamente, isso é algo que pode fazer a diferença no longo prazo”, diz.

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