A música de qualidade está morrendo no Brasil e você é um dos culpados

Por r-tadeu | Na Mira do Regis – 4 horas atrás

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Sim, é isto mesmo o que você acabou de ler aí no título. Esta situação é real e você é sim um dos culpados. Calma, vou explicar…

Para que você mesmo chegue a esta conclusão, faça a seguinte pergunta para a sua consciência: “quando foi a última vez que saí de casa para assistir a um show de uma banda ou artista que eu não conheço?” Se você acha que a pergunta é absurda, saiba que anos atrás era perfeitamente compreensível que uma pessoa saísse de casa para dançar e, de quebra, assistir a um show de uma banda da qual ela nunca havia ouvido falar.

Como bem lembrou o colega Ricardo Alexandre em um ótimo artigo – que você pode ler aqui-, um dos grandes responsáveis por recolocar o rock nacional parcialmente como fenômeno no mainstream foi o circuito das danceterias, muito forte na década de 80. No início, você saía para dançar e recebia como “bônus” o show de uma banda ou artista que estava galgando os primeiros passos de um a carreira sólida, como Titãs, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Ritchie, Lulu Santos e tantos outros. A receptividade do público foi tamanha que, tempos depois, a coisa se inverteu: as pessoas passaram a sair para assistir a um show e aproveitavam para dançar com seus amores ou mesmo paquerar.

O que poderia ter se transformado em um cenário musical constante e relevante acabou virando uma pasmaceira de dar dó nos dias atuais. No caso específico do universo roqueiro, tudo ficou ainda pior. Além de não existir mais um grande números de casas noturnas dedicadas ao gênero, as poucas que sobraram se transformaram em palco para centenas de bandas cover, constrangedoras de tão ruins em sua a grande maioria, tendo como cúmplice plateias imbecilizadas que urram de prazer ao ver uns gaiatos imitando seus ídolos como se os próprios estivessem à frente. A lógica dos proprietários destes locais é simples e implacável: lugar cheio = grana dos ingressos + grana da bebida e comida. Não adianta vociferar contra os “capitalistas malvados”. Você também é culpado por este estado de coisas.

É culpado quando prefere gastar sua grana assistindo a “Dream Theaters covers da vida” a dar uma olhada em uma apresentação de uma banda que faz um som similar, só que autoral. Quando não demonstra sequer a curiosidade de ouvir antes o som de um grupo nacional que compõe suas próprias canções, cujo show acabou de ser anunciando em um lugar qualquer perto de sua casa. Sim, a sua “preguiça mental” também está matando a boa música autoral. E isto não acontece somente no universo roqueiro. Vale para qualquer gênero e estilo.

É exatamente este tipo de postura preguiçosa que faz com que, incrivelmente, uma metrópole gigantesca como São Paulo ofereça pouquíssimas opções neste sentido. Ao lado dos bares onde imperam os covers de todos os estilos que você imaginar, ainda há os SESCs da vida, por onde transitam grande parte da música brasileira atual e autoral, mas que, em contrapartida, é um clube extremamente burocrático na hora de fazer as suas agendas de programação. Pergunte a qualquer músico que tenha tentado marcar shows neste circuito e você verá o quanto é difícil para qualquer um tocar lá. Agora, não se pode negar que no dia em que o SESC não mais existir, 90% da cena musical autoral do Brasil vai deixar de tocar ao vivo. É uma triste realidade, mas verdadeira.

E antes que você venha com o papo “porra, o Regis tá com o mesmo ‘mimimi’ de quem vive pedindo apoio à cena do rock” ou do que quer que seja, um aviso: não estou valorizando aqueles picaretas que se acham o último biscoito recheado do pacote e sim grupos e artistas que apresentam um trabalho de ótima qualidade, mas que são relegados à indiferença por conta do “descaso mental” do público. E este inclui você. Sim, você mesmo, que está lendo estas linhas neste exato instante.

Pense nisto.

Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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