ARTIGO

Carlos DaghlianCarlos Daghlian

Um genocídio quase esquecido

Os armênios do mundo inteiro relembram hoje o centenário do Genocídio Armênio, dia em que, em 1915, o governo turco decretou o massacre dos armênios, que havia séculos povoavam a parte da Turquia conhecida por Anatólia, para tirá-los do seu território e ficar com os seus bens. A estimativa é que 1,5 milhão de armênios foram massacrados no período da 1ª Guerra Mundial. Meus pais e os idosos da família evitavam falar conosco sobre a tragédia que viveram. Mas quando fui cursar mestrado nos Estados Unidos (1963-1965), morei em Los Angeles com a família de tio Benjamim, sobrevivente, o irmão mais velho do meu pai. Ele contou fatos que até meu pai desconhecia. Meus avós paternos, com duas filhas moças, dois filhos pré-adolescentes e o filho caçula, que tinha um ano e meio, foram arrancados de suas propriedades e conduzidos por soldados turcos, com milhares de armênios indefesos, ao deserto de Deir-Ez-Zor, em território sírio. O caçula, de um ano e meio, foi colocado nas costas de tio Benjamim, que tinha 13 anos. De meus avós, não tivemos mais notícias. De suas filhas, alguns sobreviventes informaram que as viram sendo mortas a machadadas. O filho caçula, chorando desesperadamente e pedindo água e comida, acabou sendo abandonado no deserto, onde teve a sorte dos que ali morreram. Os dois pré-adolescentes foram recolhidos por beduínos curdos que viviam às margens do Eufrates. Minha avó materna sobreviveu. Seu irmão mais velho, tio Moisés, foi poupado porque os turcos precisavam dele. Era farmacêutico e exercia as funções de médico.

Tio Moisés conseguiu esconder meu pai dentro de casa por três anos. Sempre que chegava alguém de fora, ele se escondia no sótão ou no porão. Mas, certo dia, tio Moisés recebeu a visita de um policial turco, de cuja família ele cuidava. O policial disse: "se eu fosse o senhor, fugiria desta cidade ainda hoje, porque amanhã os soldados virão buscar a sua família, para deportação". Ao escurecer, a carroça com a mudança tomava o rumo da fronteira com a Síria, onde chegaram no dia seguinte e, passando por Alepo, foram ao Líbano. Em Beirute, meu pai foi colocado em um orfanato inglês. Os dois irmãos dele tinham sido adotados pelos beduínos curdos, que tinham até arranjado casamento para os dois. Mas, depois de alguns anos, eles fugiram para Bagdá, e de lá chegaram a Beirute, onde esperavam ter notícias da família. Num sábado, enquanto passeava pela cidade, meu pai teve a surpresa de reencontrar os dois irmãos. Então os sobreviventes da família se organizaram para vir ao novo mundo. Em 1920, tio Moisés com a família e tio Benjamim emigraram para os Estados Unidos. A outra parte da família, que incluía meu pai e um irmão dele, veio ao Brasil em 1926.

Meu pai e seus dois irmãos só se reencontraram de novo 36 anos depois, em 1956, quando o irmão americano, já aposentado, veio ao Brasil nos visitar, com a mulher e a filha. Na noite de 24 de abril de 1965, justamente quando se completavam os 50 anos do genocídio, tio Benjamim faleceu de repente. Durante o dia, eu e minha tia não ligamos o rádio nem a televisão, porque ele se mostrava tenso. Com certeza, lembrava- se do irmão caçula que teve de abandonar no deserto, embora não tivesse culpa. Na manhã do dia 25, estranhamos a ausência do meu tio, ele que era sempre o primeiro a se levantar. Quando fui chamá-lo, ele estava gelado e com o semblante sereno. Minha tia, já preocupada, foi ao quarto e, quando percebeu que ele estava morto, já chorando, disse: "ele encontrou o irmão". Segundo Robert Fisk, tido como o maior repórter de guerra do século 20, em agosto de 1939, Hitler fez a seus generais uma infame pergunta retórica para justificar a sua intenção de invadir a Polônia: "Quem ainda lembra hoje os crimes cometidos contra os armênios?". Houve várias tentativas da Turquia de afirmar que Hitler nunca disse isso, mas foram encontradas cinco versões diferentes da pergunta.

Ao invés de se desculpar com os armênios, como fez o governo alemão com os judeus, o governo turco vem gastando uma fortuna para sustentar um lobby junto a vários governos. Entretanto, muitos países, além do Parlamento Europeu, já reconheceram o genocídio armênio. Faço este relato por considerar que a História se faz também por depoimentos, sejam eles feitos por pessoas que viveram os fatos ou deles ouviram sobre os mesmos, como foi o meu caso. Muitos livros foram escritos por sobreviventes do genocídio armênio, assim como do holocausto judeu. Por isso, alguns críticos chegam a considerar a literatura produzida por sobreviventes como um "gênero" à parte. Seja como for, os depoimentos feitos por sobreviventes da primeira, segunda ou terceira geração servem para manter viva a memória e preservar a identidade de um povo.

CARLOS DAGHLIAN
Professor aposentado da Unesp

arte história Genocídio armênioClique na imagem para ampliar

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