03/01/2014 – 11h43min Por GABRIEL ROSA

Santo Amaro da Imperatriz, na Grande Florianópolis, carrega segundo lugar no ranking mundial de qualidade da água Betina Humeres/Agencia RBS

Cachoeiras, hotéis, banhos públicos e parque aquático – Santo Amaro se destaca pela água limpa

Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Se não fosse pela abundância de água, não existiria Santo Amaro da Imperatriz. As fontes termais descobertas por caçadores há 200 anos criaram o interesse do governo imperial pela região, que começava a se expandir com mais força para o Sul do país. Hoje, o precioso líquido coloca a cidade no segundo lugar no ranking mundial de qualidade, atraindo turistas para os rios e cachoeiras, gerando fama internacional e impulsionando a economia de uma cidade movida a água.

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A água que brota em Santo Amaro da Imperatriz recebe a influência das camadas subterrâneas de minerais, e especialistas acreditam que a alta temperatura e a radioatividade garantam muitos benefícios a saúde.

Quando os portugueses descobriram isso, os índios já aproveitavam as fontes quentes há tempo e não gostaram nada de ver as terras invadidas. O resultado foi uma batalha que perdurou por mais de um ano, resultando na morte de centenas de soldados e de nativos. Cinco anos mais tarde, em 1818, os portugueses haviam vencido a guerra e Dom João VI determinou a criação da primeira estância hidromineral do Brasil.

Com o passar das décadas, foram erguidos o Hospital Caldas (que virou o Hotel Caldas da Imperatriz na década de 1920), a fábrica de água mineral Imperatriz, um banho público aberto à comunidade, um aqueduto e toda uma estrutura voltada ao turismo, que inclui até mesmo torneiras para as pessoas encherem garrafas com água recém-tirada da fonte.

Um pouco à frente do Hotel Caldas, um parque aquático recebe os turistas. Além disso, Santo Amaro da Imperatriz se tornou não apenas um dos polos brasileiros de água mineral, mas também um lugar frequentado por amantes do rafting e das cachoeiras.

O quarto novo do imperador

Para receber o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina por um único dia, em outubro de 1845, o então Hospital Caldas teve que ser repensado por inteiro. Foi aumentado o número de quartos, o prédio foi ampliado, diversas mobílias foram levadas do Rio de Janeiro a Santo Amaro da Imperatriz e parte da estrutura teve de ser refeita para facilitar o acesso do casal imperial às banheiras quentes.

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Quarto do casal imperial no Hotel Caldas é decorado com móveis históricos. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

A hospedagem foi tão calorosa que os relatos da época mostram a visita como um dos pontos altos da viagem que Dom Pedro II fez às províncias do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Era a primeira vez que o jovem governante deixava a sede do poder, no Rio de Janeiro, sob o pretexto de concretizar o acordo de paz com o líder dos Farrapos no Sul do país. Quando deixou o local, dizem os relatos da época, Dom Pedro II chorou e prometeu fazer o possível para voltar – embora nunca o tenha feito.

Para o historiador e professor José Carlos Petri, a parada do imperador na localidade se justificou pela necessidade de fixar o poderio imperial na tão cobiçada região. Trinta anos após a batalha entre portugueses e indígenas, o governo achou válido prestar uma homenagem aos soldados mortos (acredita-se que sejam mais de mil) com uma placa pregada na parede do hospital: "À memória dos milicianos d’el-rey de Portugal aqui mortos pelos selvícolas em 30 de outubro de 1814, quando em guarda a estas já afamadas thermas".

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Historiadores acreditam que batalha tenha deixado mais de mil mortos. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

A recepção que hoje seria vista como extravagante, na época foi motivo de orgulho. Após a partida do casal, foi adicionado um décimo-terceiro quarto, apelidado de Quarto Imperial, para o caso de uma segunda visita (que nunca aconteceu). A imperatriz também se sentiu tocada pelas águas e tornou-se mecenas do hospital, enviando seis banheiras de mármore, que estão no Caldas até hoje.

Mistérios de um tesouro perdido

— Existe uma lenda de que todo prédio antigo tem um tesouro escondido, certo? Aqui também tinha, mas nunca saberemos o que era — diz José Carlos Petri.

Ele mostra como um buraco retangular, pouco maior que um tijolo na parede do hotel, indica que um pequeno recipiente tenha sido retirado daquele lugar – provavelmente algo valioso o bastante para ter sido incrustado no próprio prédio pelos proprietários. Com a constante possibilidade de invasão e roubos, era um hábito as pessoas mais ricas criarem cofres alternativos em buracos nas paredes ou até enterrarem seus tesouros.

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Suposto "tesouro" foi encontrado durante reforma na década de 1950. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

Na década de 1950, dois homens que trabalhavam na reforma no hotel se demitiram subitamente e se mudaram para Florianópolis. Na época, o zelador Augusto Manoel da Silva, hoje com 86 anos, acompanhava as obras, mas teve que deixar o local durante o dia para cuidar de outras questões do hotel.

— Quando descobri o buraco, era tarde: os dois haviam comprado um ponto de táxi e três carros na Capital e negavam ter visto qualquer caixa — explica Silva, atualmente o funcionário mais antigo do Hotel Caldas.

Esperança para os escravos

Após quatro anos de pesquisas, José Carlos Petri se prepara para lançar no começo de 2014 o livro Entre as correntes e a liberdade: a história de um povo no Vale do Rio Cubatão. A obra trata da história dos negros na região de Santo Amaro da Imperatriz, que chegou a ter a segunda maior concentração de escravos da Grande Florianópolis quando era um distrito de São José, atrás apenas da Capital.

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Historiador e professor José Petri se prepara para lançar livro sobre escravos na região. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

O historiador explica que os escravos renovavam as esperanças ao serem transferidos para o local, já que a mata fechada e o complexo de montanhas facilitaria os esconderijos.

No subsolo do hotel Caldas, ainda é conservada a antiga prisão onde eram mantidos os fugitivos ou infratores. No cômodo de dois metros de altura, não há janela nem muito espaço para circular. As paredes maciças de meio metro de espessura agravam a sensação de claustrofobia, mas o local que serviu de cárcere a gerações de escravos hoje serve para um propósito bem menos constrangedor: virou um almoxarifado.

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Antiga prisão para escravos infratores carrega, atualmente, uma função bem menos constragedora: um almoxarifado. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

DIÁRIO CATARINENSE

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