Baleia Azul: chantagem de administradores é “blefe”, dizem especialistas

Uol Notícias em 22 de Abril de 2017

Investigações policiais em curso em mais de nove Estados indicam que participantes do Baleia Azul, que propõe desafios via Facebook ou WhatsApp que incluem automutilação e até o suicídio, estariam sendo chantageados pelos coordenadores (chamados de “curadores” ou “administradores”) quando tentam abandonar o desafio. A chantagem incluiria ameaças de agressões físicas a parentes, como pai e mãe. A intimidação tem sido apontada como uma das razões para que jovens prossigam no jogo mesmo à revelia, segundo a polícia. Mas essas ameaças seriam mesmo para valer?

UOL conversou com policiais e especialistas em crimes cibernéticos. Eles foram unânimes em afirmar que as ameaças são recursos de intimidação e persuasão, como nos golpes de suposto sequestro aplicados por telefone, e não se transformam, nem vão se transformar em casos concretos.

Quanto às mensagens que circulam velozmente pela internet com avisos alarmantes de possíveis ameaças relacionadas ao jogo, o melhor é avisar as autoridades antes de repassar, porque a chance de alimentar apenas boatos e disseminar o pânico é grande, dizem especialistas.

Automutilações e suicídios suspeitos de ligação com o jogo foram notificados em diversos Estados brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso, Goiás, Pernambuco e Paraíba).

Investigação complexa

Ainda não se sabe quantos casos realmente estão ligados ao Baleia-azul, mas a Polícia Civil tem feito diligências nos Estados para descobrir a identidade dos responsáveis pelo recrutamento e administração dos jogos. Há suspeitas de que alguns estejam até em outros países, como os Estados Unidos, tornando-se um crime de natureza internacional. Computadores e telefones celulares de vítimas foram apreendidos e estão sendo examinados.

No caso da menina de 16 anos morta por afogamento em Vila Rica (MT), os pais relataram a possibilidade de a morte estar relacionada com o jogo. De acordo com as investigações iniciais, haveria adultos atuando na incitação ao suicídio e os envolvidos seriam da própria região da cidade, que fica a cerca de 1,2 mil km de Cuiabá, já perto da divisa com o Pará. Segundo o delegado responsável, eles podem ser acusados de homicídio.

O tenente-coronel da PM Arnaldo Sobrinho de Morais Neto, especialista em crimes cibernéticos, ressalta que a dinâmica de ambientes digitais é superior à da investigação, que precisa de autorização judicial para a quebra de sigilo de perfis no Facebook, por exemplo. “Na internet, a produção de provas se dissipa muito velozmente e não se chega a uma punição efetiva”, identifica.

Em nome de investigações mais eficientes, defende um caminho entre a livre coleta e a interceptação de mensagens online pela polícia e o sigilo absoluto, garantido pela Constituição Federal.

Aqui entra a colaboração das ferramentas de comunicação online como Facebook e WhatsApp. Segundo Pablo Cerdeira, da FGV Direito Rio, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente, lei 8.069) no artigo 4º e um artigo semelhante da Constituição Federal, o 227, responsabilizam também as empresas de tecnologia diretamente ligadas ao jogo. “Essas empresas precisam colaborar”, defende.

Chantagem é blefe

Segundo relatos, o curador/administrador fiscaliza o cumprimento de cada etapa, exigindo provas do jogador. O curador também intervém para dissuadir, no caso de tentativas de desistência, valendo-se de ameaças violentas à integridade física de pessoas próximas ao jogador. Com medo das represálias, jovens aceitam continuar, diz a polícia.

“Mas essas ameaças são, via de regra, blefes para que as pessoas permaneçam no jogo”, pondera Arnaldo Sobrinho de Morais Neto, tenente-coronel do Centro Integrado de Operações da Polícia Militar da Paraíba. “Essas ameaças nunca se concretizaram de fato, nem vão”, completou.

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