© Alberto Saraiva

Joesley Batista, rebatendo a fala de Temer em nota produzida por sua assessoria, disse que, graças às delações premiadas, “O Brasil mudou para melhor”.

Isso é um fato, principalmente quando a delação premiada é conduzida fora da Força Tarefa em Curitiba. No caso, pela Procuradoria Geral da República.

Foi assim com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro: gravou seus antigos cúmplices e parceiros, complicou a vida de Delcídio, Sarney e Jucá continuaram soltos e ele recebeu a “pena” de passar dois anos com tornozeleira eletrônica em sua mansão em Fortaleza, CE, sem nenhuma medida cautelar que não essa – inclusive livre acesso a internet e telefone. Considerando que deveria estar preso, foi uma mudança e tanto. Para melhor. Melhor para ele, claro.

Com Joesley foi ainda melhor: pagou uma multa mixuruca, ganhou o direito de mudar a sede de suas empresas para a Inglaterra (queria na Irlanda, que é um paraíso fiscal) e está morando livre, leve, solto e bilionário na Fifth Avenue, em NY. Sem entregar passaporte, sem restrição de qualquer ordem, nem mesmo o uso de uma tornozeleira de griffe. Poderia ser uma Van Cleef & Arpels. Mas nem isso.

Mais ainda: os irmãos, que derrubaram o índice Ibovespa e explodiram a cotação do dólar (o que fez o BC intervir, com evidentes prejuízos) venderam ações do grupo na alta, compraram na baixa; fizeram o movimento contrário no mercado de dólar e ganharam (dizem) cerca de um bilhão de reais, o que paga em quase quatro vezes a “multa camarada” estipulada pelo camarada Janot. E sobra um bom troco, que paga quase que integralmente a multa de 1,4 bilhão que eles admitem pagar por suas traficâncias mirabolantes e miliardárias.

Os acionistas minoritários foram lesados, os Fundos de Pensão enganados e o BNDES está com um mico de bilhões na mão. Vai ter que avançar no patrimônio das fábricas que ficaram no Brasil, já que a holding e o grosso do faturamento (80%) se mudaram para os dois lados do Atlântico Norte. Tudo com financiamentos subsidiados do BNDES que, para receber, vai enfrentar uma guerra judicial caríssima e sem data para acabar.

Tudo que os irmãos delataram sobre os corruptos de sempre não está tendo a devida repercussão na mídia e na opinião pública, apesar de serem casos gravíssimos. Isso porque denúncias contra Lula, Dilma, Mantega, Aécio, Cunha, Vaccari, PT, PMDB, PSDB e outros se tornaram tão comuns que já não movem moinhos.

Para conseguir essas “mudanças” tão vantajosas, Joesley precisava de uma bala de prata. E a PGR (e Fachin) sabiam disso muito bem. Então era imprescindível que Temer, de alguma maneira, fosse flagrado. Não que ele fosse um santo; quem é por anos e anos presidente de um partido que tem como caciques Renan, Cunha, Jucá, Eunício, Cabral, Pezão e outros não pode estar isento de nada, muito ao contrário.

Utilizando a técnica de Sergio Machado, Joesley foi procurar Temer com gravador no bolso. Foi recebido depois das 23:00 na residência do presidente porque era um bom e velho financiador do PMDB. E dele próprio, inclusive.

E foi com sua conversa de cerca-lourenço que conseguiu o que queria e o que a PGR precisava para lhe dar salvo-conduto, liberdade plena, novo endereço e tudo que pediu.

A PGR e Edson Fachin, em busca do estrelato, jogaram o Brasil na maior crise institucional que já viveu desde a queda de João Goulart e a tomada do poder pelos militares. Esta crise tem consequências imprevisíveis ou, pelo menos, ainda não dimensionadas.

Impressiona que a mídia, como um todo, tenha assumido a bandeira do Fora Temer, extrapolando os fatos e potencializando seus efeitos.

Especialmente a Rede Globo (a delação sobre Temer foi vazada com exclusividade para Lauro Jardim, colunista de O Globo), o mesmo grupo que patrocinou a intervenção militar nos idos de 1964. Lá atrás, era a luta contra o comunismo. O que os move agora, não sei.

E agora Temer, sozinho, tenta formar uma “Rede da Legalidade” (naquele tempo comandada por Brizolla – e longe de mim defender o caudilho e os terroristas – comunistas que queriam tomar o país; estou fazendo um paralelo histórico).

Temer está lutando contra tudo e contra todos, sem popularidade, enfrentando reformas tão difíceis quanto necessárias de serem aprovadas e com a pecha de ilegitimidade que o PT, o mais corrupto dos partidos, lhe pespegou.

Não sei até onde vai sua culpa. Só sei que é bem menor que a de Lula, Dilma e as esquerdas corruptas, populistas e demagógicas. Nem precisam ser somadas: bastam as do chefe da Orcrim. E não podemos esquecer que foi o próprio PT que o levou para a chapa, como vice, e por consequência fatiou o governo com aquela corja. E com outras mais.

Pelo menos Temer nunca foi acusado de querer transformar o Brasil em um “paraíso socialista”, ou numa protoditadura bolivariana, ou numa grande Cuba.

E isso, num quadro em que todos, sem exceção, são corruptos – uns mais, outros menos -, é para mim uma qualidade imensurável.

Alberto Saraiva, na certeza que prefere Temer sem as duas pernas que Lula sem um dedo.

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