Convido os leitores do Jornal Capital das Nascentes, versão online, o texto sobre a história da vizinha cidade de Ituporanga, um dos municípios nascidos a partir da Colônia Militar Santa Thereza. Daqui partiram os primeiros desbravadores que assentaram a pedra de fundação do grande município vizinho.

Importante também a leitura sobre o “famigerado”  Marcolino Martinho de Jesus, “honesto no seu viver e de extrema seriedade“. Convido os leitores a conhecer um Martinho Bugreiro mais próximo da realidade do que a má fama gerada pelo diz-que-diz de pretensos historiadores.

O texto foi extraído do site: http://www.radio1047.fm.br/noticia-abrir.php?uid=3099

Os antigos mapas da província de Santa Catarina indicavam a zona do Rio Itajaí do Sul como um lugar desconhecido e com aldeias de índios nativos e que, na época, ainda não tinham tido contato com a civilização.

Em 1853, o governo imperial determinou a criação da Colônia Militar de Santa Tereza, localizada onde hoje se situa o Distrito de Catuíra, às margens do Rio Itajaí do Sul. Nesta colônia, contratavam-se soldados e colonos, com objetivo de defenderem tropas e viajantes, que seguiam em direção aos campos de Lages.

Nos últimos meses do ano de 1890, o Governo Provisório da República havia feito contratos com o Coronel Carlos Napoleão Poeta, o Coronel Gustavo Richard e o Coronel Emílio Brum, para fundarem neste Estado, núcleos agrícolas e fixarem lugares para colonos emigrantes. Os referidos concessionários transferiram os seus contratos para a Companhia de Colonização e Indústria de Santa Catarina que tinha à sua frente o Coronel Carlos Napoleão Poeta, como diretor liquidante. 

Essa empresa começou a intensificar o seu serviço de colonização em 1902, fazendo medições de lotes e abrindo estradas em suas terras.

Em 1908, o Coronel Carlos Napoleão Poeta contratou com o Governo do Estado a construção de uma estrada carroçável entre Barracão (atual Alfredo Wagner) e a barra do Rio do Oeste (hoje Rio do Sul). A estrada seguia a sinuosidade do Rio Itajaí Sul, desbravando-o, para ali admitir a localização de agricultores e fazer as bases para as futuras povoações. 

A empreitada não foi das mais fáceis. Lutando contra muitos obstáculos, entre eles o perigo das matas e o ataque de índios que habitavam a região, a finalidade do bandeirante catarinense foi conseguida dentro de regular espaço de tempo.

Encorajados por esta primeira iniciativa de colonização nesta região desconhecida, por terra e rio abaixo, em canoas improvisadas, Matias Pedro Sens e Egídio Sens se estabeleceram em pontos da atual Vila Nova, e João Steffens na barra do Rio Perimbó. Estimulados por estes moradores, Matias Gil Sens, acompanhado de esposa e filhos, após sete dias de exaustiva viagem, fixaram residência mais abaixo, em 15 de agosto de 1912, data considerada a chegada desses primeiros colonizadores, seguidos, logo depois, por mais uma leva de colonos. 

Chegados ao local, tiveram que enfrentar logo de início, não somente os perigos da mata e a violência dos animais selvagens, como também o ataque de índios. O desenrolar dos dias da nova residência a família foi desbravando matas, construindo atalhos para as roças de cultura, criando aves domésticas e animais necessários à lavoura, fazendo com que o produto conhecido de seu trabalho empolgasse outras famílias a também fixar moradia nessa região. 

Seguiram os passos de Matias Gil Sens e seus familiares os agricultores: Adão e Jacob Sens na sede; Fernando Sens e Leopoldo Ludwig na Barra do Rio Gabiroba; Guilherme Mohr no Rio Batalha e muitos outros, cada qual dando sua parcela de contribuição para o desenvolvimento da região. 

Dos registros existentes, em relação aos primeiros anos de colonização, consta que “a 8 de maio de 1913, aproximadamente pelo meio-dia, descansando em seu ranchinho, Egidio Sens, irmão de Matias Pedro Sens, foi surpreendido pelo ataque de um bando de índios botocudos. Fazendo uso de sua espingarda, feriu um dos atacantes na cabeça e enquanto os outros recuavam, fugiu para casa de seu irmão Matias, salvando-se. Das muitas flechas que os índios atiraram em Egídio, uma lhe acertou, atravessando o seu braço direito. Ele mesmo a arrancou, em pedaços, do braço ferido, defendeu-se como pode. O curativo do ferimento foi feito pelo então capitão Rosinha (general Vieira da Rosa), que casualmente estava fazendo o levantamento da estrada de rodagem da região”. 

Um dia após o ataque dos índios a Egidio Sens, Sebastião Antonio Pereira atravessou as matas do então lugarejo Salto Grande, pela segunda vez, na função de estafeta (correio a cavalo) da nova linha postal entre Barracão e Bela Aliança (Rio do Sul), sem encontrar sérias ameaças dos índios que povoavam estes lados, os quais após certo tempo, perseguidos pelos colonos existentes nas redondezas do povoado, localizaram-se em Ibirama, onde o governo federal lhes reservou área de terras para caça (reserva indígena). 

Martinho Marcolino de Jesus era seu verdadeiro nome. Natural de Angelina residia em Taquaras, no caminho para Palhoça-Lages. Ali os índios haviam dizimado sua família, matando esposa e dois filhos. Inconformado, ele se lançou à caça implacável dos causadores dessa desgraça.

Pouco se conhece a respeito do “bugreiro”, os relatos retratam um caboclo simples, um homem comum. Alto, magro e de rosto moreno. Ágil e, sobretudo, corajoso, conhecia com perfeição a mata e seus segredos. Era fechado, falava pouco. Honesto no seu viver e de extrema seriedade. Exigia que as índias aprisionadas, crianças ou adultas, fossem tratadas com maior respeito. Chegou ao extremo de liquidar um de seus companheiros porque insistia em se aproveitar de uma menina índia, muito bonita, capturada numa investida na região de Ituporanga. Presume-se que tal fato tenha acontecido na localidade de Rio Batalha, onde se acha sepultado um de seus companheiros. Sua função era espantar, aprisionar e exterminar índios. “Sem-vergonhices” não eram permitidas. Seu retorno das “caçadas” era sempre aguardado com interesse. As famílias abastadas ficavam ansiosas para adotar alguma indiazinha que fosse capturada.

Das muitas emboscadas que realizou, Martinho trazia sempre mulheres e crianças indígenas, que em Blumenau eram entregues ao Juiz de Direito da Comarca, Dr. Alves de Albuquerque Gama, que as encaminhava aos cuidados das Irmãs do Convento da Divina Providência, e algumas confiadas a famílias abastadas da cidade, que as adotavam. Além das presas, entregava ao magistrado não só os arcos e flechas e outros apetrechos, como também prestava contas, devolvendo o dinheiro que sobrava, e que era repassado pelo juiz ao convento para sustento e criação das indiazinhas.

Com a pacificação dos índios e a organização de uma aldeia para eles na região do Rio Plate, Martinho, que ficara sem função, terminou seus dias, na cidade de Bom Retiro.

(Dados extraídos do opúsculo de Enéas Athanázio “Martinho Bugreiro: Criminoso ou Herói)

A primeira denominação da localidade que hoje constitui a cidade de Ituporanga, nunca usada oficialmente, foi “Rio Abaixo”, por razão da primeira picada aberta pelos exploradores da região, e pelo fato de a estrada carroçável construída seguir continuamente a margem direita do Rio Itajaí do Sul.

Posteriormente, devido à localização onde se estabeleceram os primeiros povoadores descendentes de imigrantes alemães, originários de São Pedro de Alcântara, no município de São José e Santo Amaro da Imperatriz, no município de Palhoça, Ituporanga passou a ser denominada Barra do Rio Gabiroba e Barra do Rio Perimbó.

Em 1919, quando foi criada a primeira escola, o local passou a ser chamado de Salto Grande, em virtude da escola e da existência de uma bela queda d’água nas suas proximidades.

Em 1923, Salto Grande foi elevado a categoria de vila com o nome de Generosópolis, dado em homenagem ao superintendente da época, senhor Generoso Domingos de Oliveira, também presidente do Diretório do Partido Republicano Catarinense, e cuja influência política que mantinha o fizeram merecedor dessa homenagem. No entanto, essa denominação somente foi usada em carimbos dos correios e documentos oficiais, continuando o local a ser conhecido denominado Salto Grande pela população.

A legislação Federal relativa à duplicidade de nomes de cidades e vilas brasileiras atingiu também o distrito de Salto Grande, que passou a chamar-se Ituporanga, que significa “Salto Grande” na língua dos índios, nome que conserva atualmente.

Pela lei nº. 1.408 de 4 de outubro de 1922, foi criado o Município de Bom Retiro e em seus novos limites foi incluída a localidade de Salto Grande, que pela lei nº 11, de 5 de novembro de 1923 era elevada à categoria de Distrito, com o nome de Generosópolis.

O crescimento do então distrito de Generosópolis e a luta de suas lideranças sensibilizaram o Governo do Estado que, através da lei nº. 247 de 30 de dezembro de 1948 elevaram o Distrito à condição de cidade, sendo criado o Município de Ituporanga, instalado solenemente em 14 de fevereiro de 1949, assumindo as funções de Prefeito Provisório o então Tenente da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina, Olivério José de Carvalho Costa, nomeado por decreto do Governo do Estado.

Em 11 de setembro de 1949, realizaram-se as eleições para prefeito e vereadores de Ituporanga, tendo sido eleito o primeiro prefeito do município, o senhor João Carlos Thiesen, e eleitos os membros da Câmara Municipal, composta por sete vereadores, os quais assumiram suas funções em 24 de setembro de 1949.