O historiador John Lukacs, americano de origem húngara, em seu livro “O fim do século 20 e o fim da Era Moderna”, analisa a importância das monarquias para os povos:

  1. A Monarquia pode ser fator de Unidade entre os povos;
  2. Ela, a monarquia constitucional e hereditária é adequada às modernas democracias;
  3. Ela é um instrumento de continuidade e tradição histórica, política e social;
  4. Ela é uma garantia de legitimidade e de liberalismo;
  5. A dissolução ou queda da Monarquia tem consequências colossais e seus efeitos duram séculos.

A monarquia hereditária e constitucional pode manter um povo unido (isto é, até que as limitações da autoridade monárquica declinem a tal ponto que mesmo o significado simbólico de sua presença seja comprometido e privado de respeito), talvez em especial na época da democracia em ascensão. Isso é válido não apenas para a Inglaterra, conforme Bagehot observou há mais de 120 anos. (Há muitos exemplos, como o retorno de um monarca, o rei Juan Carlos, ao trono da Espanha.) é particularmente válido para os Estados multinacionais. A pessoa de Franz Joseph manteve unida a monarquia dual austro-húngara. A Rússia lucraria com a restauração de uma monarquia onstitucional, embora esta pareça fora de questão. No caso da Romênia (incluindo suas minorias), melhor teria sido que o exilado Michael II voltasse para Bucareste em 23 de dezembro de 1989, um dia após a queda de Ceausescu (em vez disso, ele esperou até que fosse tarde demais). Para a Bulgária, teria sido bom que Simeon II voltasse como rei constitucional (ele deixara o país menino, em 1946O, Até na Iugoslávia, o filho do esquecido Pedro II (o único monarca europeu a morrer nos Estados Unidos) talvez houvesse evitado a guerra civil de 1991. Há Otto von Habsburg, respeitado e querido na Áustria, na Hungria, na Tchecoslováquia, na Eslovênia e na Croácia, se mais jovem (está com 79 anos agora), mais ambicioso e perspicaz, poderia tentar: conta com o apoio potencial nesses países. embora, naturalmente, transformar apoio político potencial em real seja uma outra questão. Ele poderia se tornar dirigente de algum tipo de federação semelhante — ainda que apenas em certa medida — ao antigo império danubiano. De qualquer forma, algo assim seria mais natural e duradouro que os frouxos laços econômicos sob o nome de uma “Comunidade Européia” praticamente inexistente.

Estes são pensamentos de um historiador, não reflexões nostálgicas de um reacionário. A monarquia constitucional hereditária (distinta da eletiva) adéqua-se de maneira especial à democracia moderna, quando as massas, além de ávidas pelos símbolos da realeza, precisam mais que nuca da presença visível e da consequente autoridade da figura de um pai (ou mãe) sensível, da presença de uma respeitável família reinante, com seus filhos. Tal autoridade assegura não o medo, talvez nem mesmo o poder, a não ser daquele tipo intangível resultante de respeito humano decente e honesto. No século 20, a monarquia constitucional e hereditária constitui mais que um instrumento de continuidade e tradição. Sua função é histórica, mas também política e social. É uma garantia de legitimidade e até mesmo de liberalismo. Mas, ai, não acontecerá. (Não antes de séculos partir de agora, ante um novo feudalismo, com a ascensão de novos chefes bárbaros, quando um futuro Otto, o
Grande, poderá ser uma inculta mas extremamente inteligente combinação de astro de rock e líder de gangue.)

São colossais as consequências históricas da queda e dissolução dos impérios. Duram séculos. A falência e decadência do império espanhol levou às grandes guerras atlânticas entre a França e a Inglaterra, um grande capítulo da História durante o qual surgiram os Estados Unidos. As guerras entre a Inglaterra e a França no século 18 duraram 126 anos; o declínio do império espanhol durou mais de trezentos anos, da derrota da Armada em 1588 à Guerra Hispano-Americana em 1898. (No fim, s Estados Unidos herdaram boa parte do império espanhol, incluindo sua presença naval no Mediterrâneo, chegando até as Filipinas — de onde se retiram agora, assim como um dia irão se retirar de Porto Rico.)

No outro lado da Europa, a falência do império turco durou um guarto de milênio, de cerca de 1683 a 1923, resultando no que nossos ancestrais chamaram de Questão Oriental (mais corretamente do que seus sucessores, que hoje chamam o Oriente Próximo de “Oriente Médio”). A queda dos turcos levou, entre outras coisas, à explosão da Primeira Guerra Mundial. Nos bálcãs, os russos e os austríacos (e, por volta de 1914, até os alemães, na Turquia) defendiam seus interesses; o apoio aos satélites provocou muitos conflitos e pequenas guerras, ameaças de guerras maiores e assassinatos, como o do arquiduque e herdeiro austríaco em 1914. Mais para o leste, o fim do império turco provocou muitas disputas racionais e irracionais que ainda hoje caracterizam o Oriente Próximo. (Se os turcos ainda dominassem a Mesopotâmia, se os espanhóis ainda controlassem Cuba e se os britânicos ainda regessem na Índia, será que esses lugares não estariam em melhor situação? Será que os povos dominados não estariam melhor? Isto sim é nostalgia de historiador.)

E agora temos a dissolução do império russo, que pode ser irreversível. Que terríveis consequências poderá enfrentar a mais vasta massa de terra do mundo, o centro eurasiano do Planeta sobre o qual geopolíticos tem especulado e escrito desde o início do século? Algumas dessas especulações podem ter sido fúteis, ao contrário de um fato que Hitler reconhecia (e Roosevelt, não): o retorno da primazia do poder terrestre sobre o poder marítimo, após quinhentos anos. No entanto, a principal ameaça à Rússia já não vem da Europa. Os alemães, mesmo que estabeleçam seu predomínio no Leste Europeu, não voltarão a aspirar a conquista da Rússia. (Mas uma aliança alemã com um regime russo pró-alemão é possível.)

John Lukacs, “O fim do século 20 e o fim da Era Moderna”, Editora Best Seller, Circulo do Livro, 1993, página 82/84

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