Áudio falso atribuído a senador diz que país está próximo da tomada do poder pelos militares. Na verdade, Buarque criticou general que admitiu golpe

A declaração do general do Exército Antonio Hamilton Mourão, há duas semanas, em que ele admitiu a possibilidade de um golpe militar no país, segue dando margem à proliferação de boatos nas redes sociais e, sobretudo, no WhatsApp.

A lorota da vez é um áudio de cerca de 15 minutos, no qual um homem se passa pelo senador Cristovam Buarque (PPS-DF) para falar em “caos institucional” no Brasil e explicar que o país está no segundo de “três estágios” até a tomada do “poder em Brasília” pelas Forças Armadas (ouça e leia um trecho abaixo):

“O Brasil não está mais funcionando os três Poderes, todos eles corrompidos pela corrupção e a impunidade. Quando existe isso, existe o que a gente chama de caos institucional, o país fica sem comando, fica à deriva e o que pode acontecer? As instituições vão parar de funcionar, não há mais a garantia da lei e da ordem dentro do país, como a gente está vendo em vários locais, como Rio de Janeiro, São Paulo, etc. A federação corre o risco de se dividir, porque daí começam a querer separar “o Sul é meu país”, o outro quer separar São Paulo não sei da onde. E aí você desintegra o país em três ou quatro pedaços e o país fica sujeito a um ataque externo. A quem cabe nessa hora entrar para garantir a lei e a ordem, a unidade federativa, o funcionamento das instituições e a segurança nacional? As Forças Armadas. Elas são instituições de Estado permanentes, isso quer dizer que elas atendem à nação, e não a governos ou pessoas. A quem as Forças Armadas tem que ser leal [sic.]? A um presidente corrupto, indiciado pela segunda vez pelo Ministério Público Federal no Supremo, ou à Constituição Federal, à nação? Claro que as Forças Armadas têm que ser leal [sic.] à Constituição Federal e à nação. E a nação precisa que eles resgatem o país da situação de deriva que está chegando

(…)

O estágio 1 foi a deflagração do movimento pelo general Mourão na sexta feira; o estágio 2 começou, que são essas trocas de acusação de senadores contra o exército, contra o general Mourão, o general Villas Bôas. Isso vai, cada vez, agravando mais a crise. E o estágio 3 é a tomada do poder em Brasília pelas nossas Forças Armadas. Nós estamos agora no estágio 2 e, em alguns dias, estaremos no estágio 3”

A voz no áudio claramente não é a do senador Cristovam Buarque. Trata-se de uma imitação malfeita. Ademais, ao longo de sua carreira política, o senador sempre foi mais identificado com ideais de esquerda, opostos ao ideário daqueles que pregam a intervenção militar no país. Buarque foi filiado ao PT entre 1990 e 2005 e comandou o Ministério da Educação entre 2003 e 2004, no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A única manifestação de Cristovam Buarque a respeito das declarações do general Mourão foi crítica à posição do militar. Em pronunciamento no Senado, no último dia 20, ele afirmou que “a saída para o Brasil passa pelas urnas, não pelas armas”. Ouça aqui a íntegra do discurso do senador.

Diante da ampla divulgação do áudio falso, o próprio Cristovam Buarque publicou um desmentido em seu perfil no Facebook. Na mensagem, ele relata preocupação sobre o impacto das notícias falsas nas eleições de 2018 no Brasil.

“A próxima eleição será ganha por quem for capaz de enfrentar os boatos criminosos que são espalhados. Exemplo disso é o áudio falso de alguém imitando a minha voz e se pronunciando como defensor de intervenção militarno Brasil. Quem me conhece sabe que não é minha voz. Quem conhece minhas posições e lutas sabe que o conteúdo do áudio não condiz com minhas ideias”, afirma o senador.

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