Pedro Israel Novaes de Almeida
Engenheiro agrônomo e advogado, aposentado

Ainda não sei se foi sonho ou pesadelo.
Em plena madrugada, desceu um helicóptero em meu quintal, e um grupo de senhores, sisudos, anunciou que me levaria a Brasília, pois havia sido escolhido Chefe Supremo da Intervenção.
Tentei explicar que nem terno eu tinha, e meu único sapato social estava com a sola furada. Disse, ainda, que jamais estaria separado de Faísca, ainda menina e recém castrada.
Argumentos nada resolveram, e horas depois aterrissamos na capital Federal. Faísca, já com ar de autoridade, escolheu a melhor poltrona do gabinete, e rosnava a cada visita que parecesse oposicionista.
Fui ao terraço, julgando que era proibido fumar no palácio, e lá encontrei Temer, que gritava “traidor”. Na calçada, Dilma estava indignada:-“Você é pior que o golpista”.  Ambos foram recolhidos a um centro de ressocialização.
Mantive intacta a equipe econômica, e baixei um decreto declarando inelegíveis, por 20 anos, todos os que ocuparam cargos eletivos, entre 2003 e 2017, incluindo presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores. Extingui metade dos cargos comissionados, e só mantive os que eram ocupados por pessoas de Avaré, Piraju ou Itapetininga.
Na manhã seguinte, as manchetes anunciavam, com estardalhaço, o primeiro escândalo do novo governo: Faísca havia aceitado um osso, presente de um político veterano, em sociedade com um grande empreiteiro de obras públicas. Soube, no mesmo dia, que ela havia enterrado o osso nos jardins do palácio, e conclui que não houve crime, pois o osso estava incorporado ao patrimônio público.
Acabei com o instituto da reeleição, e baixei outro decreto, possibilitando a cassação do mandato do prefeito cujo município não prestasse integral atendimento à saúde da população. Em caso de culpa do governador, seria ele o cassado, e não o prefeito.
Emendei a legislação do Foro Privilegiado, mudando para Foro Apressado, com urgência na tramitação de denúncias. Dei prazo de 60 dias para que ministros do judiciário devolvam processos a que tenham vistas.
Mudei o horário de cumprimentos de mandados, pela polícia, das 6:00 para as 9:00 horas, proibi a raspagem compulsória de cabelos dos prisioneiros e instituí o banho quente e todos os estabelecimentos prisionais. Em contrapartida, acabei com as saidinhas e encontros íntimos.
Em uma semana de governo, manifestações já pediam “Fora Pedro”, e “Fora Faísca”, mas recebi emocionadas manifestações de apoio de todos os comissionados que não havia demitido.
As refeições, no palácio, eram horríveis, pois não tinham bolinho de arroz, língua de vaca, banana frita, moela de frango, palmito, torresmo e costela gorda. Não entendia uma linha sequer dos rótulos dos vinhos que eram servidos.
Levaram, ao gabinete, a nova constituição, para que assinasse. Pedi um ano para ler, mas o Alto Conselho negou. Pensei em renunciar, mas acordei, com vontade de ir ao banheiro.
pedroinovaes@uol.com.br
O autor é engenheiro agrônomo e advogado, aposentado.

E você? Se fosse presidente? Conte-nos o que faria! As melhores e mais originais respostas serão publicadas aqui no Jornal Capital das Nascentes – Sou da Serra

 

Deixe um comentário sobre a notícia!