🔥 28 s lidos
⏱️ média: 28 s
Os alfredenses sempre se destacaram por sua inteligência viva, seu humor rápido e sua capacidade de rir sem perder a reflexão. É justamente por isso que este artigo é dedicado a eles: um povo que, como Ariano Suassuna, valoriza a palavra bem dita, a piada inteligente e a sabedoria que nasce da simplicidade. Revisitar as ideias do mestre paraibano é, de certa forma, celebrar também o espírito alfredense — criativo, irônico e profundamente brasileiro.
Entre o sertão e a academia, ele fez da língua portuguesa e do humor os instrumentos de uma filosofia genuinamente brasileira.
Há artistas que nascem para entreter, outros para ensinar — e há os raros que conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Ariano Suassuna pertence a essa última categoria. Seu pensamento e sua obra revelam um homem que jamais se conformou com a mediocridade, fosse ela estética, moral ou cultural. O dramaturgo, professor e filósofo nordestino fez de cada palavra uma defesa apaixonada do Brasil profundo, aquele que ele chamava de “cultura de raiz”, oposta à pasteurização da modernidade.
Em uma de suas falas mais emblemáticas, Suassuna ironiza a mania de universalizar tudo, inclusive os nomes dos personagens:
“Eu só boto nome nos meus personagens, nomes que possam ser traduzidos para o inglês e para o francês”, disse-lhe um colega. Ariano respondeu: “Vocês imaginem eu botar Martin de Martin em João Grilo e Chicote? Boto nada, hein?”
A resposta, simples e cortante, sintetiza sua postura: o orgulho de ser local, sertanejo, nordestino — e de afirmar que o universal se faz a partir do particular.
A mentira como arte e a verdade do humor
Ariano tinha horror à hipocrisia, mas era fascinado pela mentira criativa, aquela que dá forma ao imaginário. “Eu gosto do mentiroso que mente por amor à arte”, dizia. O humor, para ele, era uma forma de inteligência e um modo de revelar o absurdo do real.
“Tudo o que é ruim de passar é bom de contar”, observava, mostrando que a narrativa, mesmo de um infortúnio, é uma forma de vitória sobre ele.
Essa concepção aproxima Suassuna dos grandes contadores de histórias populares, dos cantadores e emboladores de feira, que transformam a dor em riso e a vida em fábula.
O gênio da língua e o inimigo do gosto médio
Professor de estética e defensor da língua portuguesa, Ariano se revoltava contra o que chamava de “nivelamento pelo gosto médio”. Sua crítica ao empobrecimento cultural era também uma crítica à indiferença espiritual:
“Em arte, não existe nada pior do que gosto médio. Mau gosto é melhor do que gosto médio”, sentenciava.
Para ele, a verdadeira arte não se mede por modismos, mas por vitalidade e autenticidade. É por isso que, ao ouvir um sucesso popular da época, concluiu com ironia:
“Se você gasta o adjetivo ‘genial’ com Chimbinha, o que é que eu vou dizer de Beethoven?”
A inteligência de Suassuna estava em enxergar a cultura não como hierarquia, mas como relação viva entre o erudito e o popular. Ele podia rir da “banda Calypso” e, ao mesmo tempo, reconhecer nela “uma coisa super brega, que é a cara do Brasil”. Sua ironia nunca era desprezo — era reflexão, crítica amorosa, olhar que ama mesmo quando ri.
A defesa da língua e da leitura
O escritor era também um guardião da língua portuguesa, indignado com as reformas ortográficas e com o desrespeito à tradição:
“Meu nome é um patrimônio. Suassuna com ‘C cedilha’ parece marca de cobra: Jararaca, Cascavel, Suassuna.”
Por trás do riso, havia uma lição de respeito pela palavra, vista como semente da identidade cultural. Quando um interlocutor lhe disse que o livro estava ultrapassado pelo computador, ele respondeu com humor e sabedoria:
“Pode estar ultrapassado, mas enquanto existir gente como eu, eu gosto de ler. E gosto de ler livro. Eu não vou ficar embolando com o computador na cama, não.”
Entre o popular e o filosófico
Ariano Suassuna via no povo uma sabedoria natural. Admirava o “doido”, o “mentiroso”, o “contador de causos”, porque neles via a pureza da invenção. “O escritor verdadeiro não vai atrás do lugar-comum”, dizia, “ele procura o que tem de verdade por trás da aparência.”
Essa visão revela um artista que era, ao mesmo tempo, filósofo e brincante: um pensador que acreditava no riso como forma de resistência.
Um pensamento ainda necessário
Em tempos de globalização e homogeneização cultural, o pensamento de Ariano Suassuna soa ainda mais atual. Ele nos lembra que a verdadeira inteligência está em reconhecer o valor do próprio chão, e que a cultura não é luxo — é identidade.
Seu humor refinado e sua fé no Brasil profundo fazem dele um símbolo de lucidez em meio ao ruído moderno. Ariano ria, mas seu riso era filosófico: nascia da consciência crítica, não da indiferença.
“Eu sou um escritor brasileiro. Meu material de trabalho é a língua portuguesa. Graças a Deus, eu nasci num país que fala português.”
Fique informado, tenha acesso a mais de 15 colunistas e reportagens exclusivas sobre Alfredo Wagner e região! Acesse Canal no Whatsapp do Jornal Alfredo Wagner Online aqui! Jornal Alfredo Wagner Online aqui!