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Ser vice-presidente na corrida presidencial pode alterar o resultado de uma eleição

Jornalista Mauro Demarchi, 20/02/202620/02/2026

Durante décadas, a escolha do vice-presidente foi tratada como etapa protocolar da formação de chapas. Um nome para equilibrar a foto, atender a um partido aliado ou contemplar uma região específica. Esse cenário, porém, não corresponde à realidade. A definição do vice é parte estratégica da engenharia eleitoral e da própria governabilidade.

O debate recente no podcast O Assunto, apresentado por Natuza Nery, recolocou o tema no centro da discussão pública: o vice pode ser hoje mais do que complemento — pode ser garantia de estabilidade.

Esse episódio do podcast é, de fato, o “padrão ouro” para entender a política brasileira atual. Ele sintetiza perfeitamente por que o vice deixou de ser o “primeiro reserva” para se tornar o garante da governabilidade.

Como analista, vejo que a tese de que o Brasil vive um presidencialismo de coalizão extremo vem ganhando terreno. E por quê?

No Brasil, o vice nem sempre é escolhido para ganhar votos, mas para evitar que o Congresso tenha incentivos para derrubar o presidente. Se o vice é alguém com quem o Legislativo “consegue conversar”, o risco de um processo de afastamento cai drasticamente.

E tem mais: O sucesso da dobradinha Lula-Alckmin em 2022 criou uma nova régua. Agora, qualquer candidato (seja de esquerda ou de direita) precisa de um vice que “fale com o outro lado”. Não se trata de amizade, mas de um contrato de risco.

Na Corrida de 2026 dois candidatos principais aparecem capitalizando a cena. Lula em busca de um vice que mantenha a ponte com o Centrão e o PIB, possivelmente um nome do MDB ou a permanência estratégica de Alckmin para sinalizar estabilidade em um eventual quarto mandato. E Flávio Bolsonaro que precisa de um vice para “limpar” a imagem da direita radical para o eleitor moderado. Nomes como Tereza Cristina (agro/mulher) ou Romeu Zema (gestão/mercado) são vistos como ativos que transformam uma chapa ideológica em uma chapa “viável” para o establishment.

    O vice-presidente no Brasil é hoje um intermediário visionário, que vai garantir a operação, para que ela não quebre enquanto o líder faz a política.

    Essa lógica de “arquitetura invisível” que está sendo construída atualmente é o que torna o Brasil um caso de estudo fascinante para analistas internacionais, pois mostra uma democracia criando anticorpos contra a própria polarização através de alianças pragmáticas.

    No campo governista, a eventual composição de chapa envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva levanta questões relevantes. A escolha poderá sinalizar continuidade, moderação ou ampliação de alianças. Um nome mais ao centro pode indicar busca por estabilidade institucional e diálogo com setores econômicos. Já um perfil mais ideológico pode reforçar a base tradicional, mas reduzir margens de expansão eleitoral.

    Do outro lado do espectro político, a hipótese de protagonismo de Flávio Bolsonaro também coloca o vice como peça-chave. A composição poderá apontar para moderação estratégica, consolidação da base conservadora ou tentativa de ampliar pontes com segmentos ainda hesitantes.

    A fragmentação partidária brasileira e o ambiente de polarização tornam o vice um instrumento de equilíbrio. Ele passa a funcionar como mensagem codificada ao eleitorado, ao mercado e ao Congresso.

    Neste cenário de incertezas políticas e econômicas, a eleição presidencial poderá ser decidida não apenas pelo nome que encabeça a chapa, mas pelo arranjo institucional que a acompanha.

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