O recente episódio envolvendo o vereador carioca Carlos Bolsonaro (PL-RJ) em Santa Catarina vai além de uma gafe geográfica: expõe a desconexão entre a estratégia de gabinete e a realidade do eleitorado. Ao confundir um bairro com um município — tratando o Jardim Eldorado, em Palhoça, como uma cidade autônoma —, o pré-candidato ao Senado escancarou as fragilidades do chamado turismo eleitoral.
A falha da assessoria: quando o filtro desaparece
Um erro dessa magnitude, em um vídeo editado e publicado oficialmente, revela um problema institucional mais profundo. Na política profissional, a assessoria deveria funcionar como uma camada de proteção e inteligência. Neste caso, a falha aponta para dois cenários possíveis — e igualmente preocupantes:
Equipe desconectada do território: profissionais que não conhecem o ambiente em que atuam, ignorando até mesmo a toponímia básica de Santa Catarina.
Silêncio dos aduladores: o fenômeno em que a equipe, por receio ou conveniência, abdica do papel crítico — inclusive o de checagem factual — e permite que o erro do líder seja publicado sem contestação.
Na era do algoritmo, focar apenas no engajamento — cliques, alcance e viralização — e negligenciar a precisão dos fatos não é apenas um descuido: é um erro estratégico. E, mais do que isso, alimenta a percepção de desrespeito à identidade local.
O paralelo histórico: entre vitórias e rejeições
O “paraquedismo” político — quando um candidato muda seu domicílio eleitoral por conveniência — está longe de ser novidade no Brasil. Seus resultados, porém, variam conforme o contexto político e a força do sentimento regional.
Em 2022, Tarcísio de Freitas venceu o governo de São Paulo mesmo após dificuldades iniciais em identificar seu local de votação. Naquele cenário, a força do projeto político nacional e a polarização ideológica falaram mais alto: o eleitor priorizou o projeto em detrimento da identidade local.
Em contrapartida, há exemplos claros de resistência. Sérgio Moro, ao tentar transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo, enfrentou obstáculos jurídicos e políticos, além da rejeição de parte do eleitorado, sendo forçado a recuar ao Paraná. Em estados com identidade regional forte — como Rio Grande do Sul, Pernambuco e a própria Santa Catarina —, o custo político de parecer um “estrangeiro eleitoral” tende a ser elevado.
O risco em Santa Catarina
Santa Catarina apresenta uma equação política particular. Trata-se de um estado com eleitorado majoritariamente conservador, o que, em tese, poderia favorecer Carlos Bolsonaro. No entanto, também é uma unidade federativa marcada por forte identidade regional e por uma dinâmica política interna bem estruturada.
Ao demonstrar desconhecimento sobre a geografia de Palhoça, o vereador não apenas se expõe ao constrangimento público nas redes sociais. Ele oferece argumentos para adversários — inclusive dentro de seu próprio campo político — sustentarem que sua candidatura não nasce de um compromisso estadual, mas da busca por um reduto eleitoral seguro para a manutenção de capital político familiar.
Conclusão: o título não substitui o mapa
A política continua sendo, por definição, territorial. Por mais que o ambiente digital tente transformar estados em meros recortes ideológicos, a realidade permanece ancorada em bairros, cidades e identidades concretas.
O despreparo demonstrado por candidatos — novos ou experientes —, aliado a assessorias que operam em bolhas, pode ser o fator decisivo entre uma vitória expressiva e uma rejeição contundente.
Para Carlos Bolsonaro, Santa Catarina pode até representar um alinhamento ideológico favorável. Mas o episódio em Jardim Eldorado deixa uma lição simples e incontornável: para representar um povo, é preciso, antes de tudo, saber onde ele vive.
Post publicado pelo próprio vereador em seu perfil na rede social.
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