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Historicamente, a política externa brasileira tem sido usada como extensão do palanque doméstico. De um lado, a direita bolsonarista vendeu por anos a ideia de uma conexão umbilical e exclusiva com o trumpismo. Do outro, setores da esquerda mais ideológica alimentaram a imagem de Trump como o “vilão global” definitivo, com o qual qualquer diálogo seria uma forma de capitulação.
Quando os dois líderes se sentaram para conversar por mais de três horas, o que se viu foi o desmoronamento desses espantalhos.
A Direita e o “Monopólio” Perdido
Para a oposição brasileira, o constrangimento foi imediato. A narrativa de que Lula seria um “pária” para a nova administração americana ruiu quando Trump, com seu estilo transacional característico, chamou o presidente brasileiro de “um bom homem” e “muito dinâmico”.
O choque para os aliados de Jair Bolsonaro não foi apenas diplomático, mas simbólico. Ver o ídolo máximo do conservadorismo global tratar o “adversário número um” com tapinhas nas costas e pragmatismo comercial forçou a direita a um malabarismo retórico: de um lado, tentaram minimizar o encontro focando na ausência de uma coletiva conjunta; de outro, viram-se obrigados a aceitar que Trump prioriza o interesse nacional americano (e a estabilidade com a maior economia da América Latina) sobre lealdades ideológicas estrangeiras.
A Esquerda e o Purismo em Xeque
O desconforto, porém, não foi exclusividade da direita. Na base mais à esquerda do PT e em partidos aliados, o aperto de mãos gerou um silêncio ruidoso. Durante toda a campanha de 2024 nos EUA, o discurso governista brasileiro flertou com a ideia de que uma vitória de Trump seria o “fim da democracia no mundo”.
Ao sentar-se à mesa para discutir a exploração de terras raras e parcerias em segurança pública — temas caros à agenda republicana —, Lula operou sob a lógica do “mundo como ele é”, e não como a militância gostaria que fosse. O constrangimento aqui reside em admitir que o Brasil, por sua soberania e necessidade de investimentos, não pode se dar ao luxo do isolamento ideológico, mesmo que isso signifique sorrir para quem, meses antes, era classificado como “ameaça fascista”.
O Pragmatismo como Heresia
O que esse encontro revela é a dificuldade das bolhas políticas brasileiras em lidar com a Realpolitik.
- Para a “torcida” da direita: Dói aceitar que Trump é um líder pragmático que vê em Lula um chefe de Estado com quem pode negociar minérios e contenção de influência chinesa.
- Para a “torcida” da esquerda: É duro processar que Lula, o líder da integração sul-americana, precisa de Washington para garantir que o PIX e as exportações brasileiras não sejam alvo de sanções.
Ao fim do dia, o encontro em Washington mostrou que, enquanto os militantes se digladiam nas redes sociais por pureza doutrinária, os líderes no topo da pirâmide estão ocupados negociando tarifas e zonas de influência.
O resultado é um Brasil onde as narrativas de “bem contra o mal” se tornaram subitamente complexas demais para um tuíte. O aperto de mãos em Washington não mudou o mundo, mas certamente deixou o churrasco de domingo de muitos militantes brasileiros bem mais silencioso.
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