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As Dificuldades de Flávio Bolsonaro no Nordeste: aliados que não se alinham…

Pauta JornalAW, 16/06/202616/06/2026

Direto de Brasília para o Jornal Alfredo Wagner Online

Quem caminha pelos tapetes azuis do Senado ou cruza os salões verde e nobre da Câmara dos Deputados, em Brasília, percebe que o clima de eleição já dita o ritmo dos cafezinhos e jantares secretos. Nos bastidores, longe dos holofotes das redes sociais, o Partido Liberal (PL) joga um xadrez de alta voltagem. O objetivo central é a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. Mas, quando o mapa foca na região Nordeste, o pragmatismo político fala mais alto e o tom das conversas muda drasticamente.

Em Brasília, o veredicto dos analistas e dos próprios parlamentares, em reserva, é consensual: associar-se diretamente ao bolsonarismo no Nordeste ainda é um “custo político” que poucos candidatos majoritários estão dispostos a pagar. Em 2022, Lula obteve 69,3% dos votos na região, e as pesquisas Quaest e Datafolha mais recentes mostram que essa muralha petista continua de pé.

Para sobreviver na região, a estratégia da direita foi engolir o orgulho: o PL aceitou abrir mão do protagonismo e ceder a liderança das chapas em troca de sobrevivência proporcional (eleger deputados). O preço? Aceitar um regime de quase “submissão”, onde os aliados usam a estrutura do partido, mas escondem o candidato à Presidência. É o fenômeno do palanque invisível.

O labirinto cearense e o silêncio de Ciro Gomes

O caso mais emblemático desse mal-estar de bastidor acontece no Ceará. O ex-governador Ciro Gomes (PSDB) lidera as pesquisas para o governo estadual em uma coligação que une o PSDB, o União Brasil e… o próprio PL.

Nos corredores do Congresso, comenta-se a saia justa. Quando questionado por jornalistas se daria palanque a Flávio Bolsonaro, Ciro foi seco e pragmático: “Por que eu apoiaria um camarada que não é do meu partido?”. Ciro prefere defender a liberdade das siglas e focar no plano nacional do PSDB com Aécio Neves.

Para piorar, a aliança cearense quase naufragou devido a ciúmes e rusgas familiares: em dezembro, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro criticou Ciro publicamente, travando as negociações conduzidas pela ala pragmática do PL. No fim, o arranjo ficou assim: quem vai carregar o piano de Flávio no Ceará será Alcides Fernandes (PL), candidato ao Senado, enquanto Ciro Gomes tenta surfar no voto anti-PT sem se queimar com o eleitorado lulista.

O distanciamento estratégico de Raquel Lyra e a resistência na Bahia e Piauí

Se no Ceará há um acordo de convivência, em Pernambuco a governadora Raquel Lyra (PSD) optou pelo distanciamento cirúrgico. Eleita em 2022 com o apoio de bolsonaristas históricos, Raquel mudou o rumo da prosa. Em Brasília, sabe-se que ela isolou o PL de sua gestão e buscou uma aproximação institucional forte com o presidente Lula. O PL pernambucano, rachado após a saída de Gilson Machado para o Podemos, recolheu as armas e já admite os bastidores: o foco será apenas eleger deputados federais e estaduais.

Caminhando mais para o interior do Nordeste, o cenário fica ainda mais árido para os planos presidenciais do PL:

  • Na Bahia: O ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) lidera a chapa de oposição ao PT e tem o PL em sua coligação. Mas, nos bastidores, ACM Neto já avisou que seu candidato à Presidência é Ronaldo Caiado (PSD). Caberá ao ex-ministro João Roma (PL), candidato ao Senado, tentar acender a chama bolsonarista em solo baiano.
  • No Piauí: O favoritismo do governador Rafael Fonteles (PT) assusta a oposição. Até mesmo o senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro de Jair Bolsonaro, preferiu lavar as mãos recentemente ao ser questionado sobre as investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e o Banco Master: “Não estou aqui para defender nem acusar… Se for culpado, tem que pagar”, declarou, mostrando que o espírito de corpo em Brasília tem limites.

Oásis bolsonaristas: Paraíba e Rio Grande do Norte

Nem tudo são espinhos para o clã Bolsonaro. No mapa de articulação política operado pelo senador Rogério Marinho, duas joias da coroa se destacam na região.

Na Paraíba, o PL conseguiu um palanque de peso com a filiação do senador Efraim Filho para disputar o governo e do ex-ministro Marcelo Queiroga para o Senado. É a vitrine mais estruturada da direita no Nordeste, embora os articuladores locais admitam, longe dos microfones, que a campanha estadual terá que ser “controlada” para não afugentar o eleitor moderado.

Já no Rio Grande do Norte, o partido comemora a filiação do ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias, que disputará o governo ostentando a bandeira da “direita raiz”. No entanto, cientistas políticos alertam que, por lá, o discurso terá de ser ultra-local para vencer a barreira do petismo.

O saldo das costuras políticas

Em Alagoas e Sergipe, a perda de lideranças locais fragmentou a oposição e empurrou o PL para candidaturas isoladas, focadas em nomes como o do deputado Alfredo Gaspar (AL).

A realidade que se impõe nos bastidores de Brasília é clara: o PL de 2026 demonstra o mesmo pragmatismo que o PT teve em 2018. Para crescer e fincar bases no Nordeste, o partido aceita ser coadjuvante e tolera “aliados” que escondem seu candidato à Presidência. A política, afinal, é a arte do possível — e, no Nordeste, o possível para a direita tem sido fechar os olhos para a infidelidade presidencial em troca de votos na legenda.

Acompanharemos os próximos capítulos dessa costura.

Direto de Brasília para o Jornal Alfredo Wagner Online. Até a próxima!

Tempo de leitura5 min

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