A proposta da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para conceder trechos das rodovias federais BR-153, BR-282, BR-470 e BR-480 à iniciativa privada encontrou forte resistência do setor produtivo do Oeste de Santa Catarina. Durante audiência pública realizada em Chapecó, lideranças empresariais de entidades como ACIC, CDL, CEC e Sicom manifestaram profunda indignação com o desenho atual do projeto, criticando a falta de duplicações e o longo cronograma de obras.
O descontentamento não está na cobrança de pedágios em si — medida aceita pelo setor para viabilizar os investimentos —, mas sim na disparidade entre o custo das tarifas e as melhorias reais previstas para a infraestrutura regional.
Os 6 principais pontos de contestação do setor produtivo
- Duplicação extremamente limitada: Menos de 30% da extensão total dos trechos concedidos receberia pista dupla ao longo de três décadas.
- O gargalo Chapecó-Irani: Dos 98 quilômetros que ligam as duas localidades, o projeto prevê a duplicação de apenas 29 quilômetros.
- Cronograma arrastado: O início da concessão está previsto para 2028, mas as obras mais robustas só começariam a avançar a partir de 2030, estendendo-se até 2037.
- Falta de garantias: Motoristas e transportadores pagariam pedágio por até 30 anos sem a certeza de uma rodovia integralmente duplicada.
- Exclusão de trechos vitais: O corredor estratégico entre São Miguel do Oeste e Chapecó não recebeu a relevância devida no plano.
- Impacto no bolso: O custo logístico encarecerá fretes e produtos. Estima-se que uma viagem de carro de passeio entre Chapecó e o litoral possa custar cerca de R$ 70 apenas em tarifas.
O nó da questão: Terceira faixa ajuda, mas não resolve
O projeto da ANTT abrange dois lotes que somam mais de 680 quilômetros de estradas federais em Santa Catarina. Embora preveja a implementação do moderno sistema free flow (pórticos de cobrança automática sem cancelas) e obras pontuais como terceiras faixas e passarelas, as lideranças locais argumentam que o plano mantém os principais gargalos estruturais do Estado intactos.
“A audiência pública nos causou espanto e indignação. O nosso maior problema hoje é a duplicação. As terceiras faixas ajudam, mas não resolvem o problema da BR-282”, afirmou Roni Tasca, presidente da CDL Chapecó. “O setor produtivo não é contra pagar pedágio se essa é a única forma de tirarmos a obra do papel. O problema é pagar por 30 anos e receber uma rodovia praticamente igual.”
A BR-282 é o principal cordão umbilical que une o agronegócio e a indústria do Oeste aos portos catarinenses e aos grandes centros de consumo. Além do evidente prejuízo financeiro e da perda de competitividade, o empresariado lembra que a falta de pistas duplas custa vidas, mantendo altos os índices de acidentes graves em uma das rodovias mais movimentadas de Santa Catarina.
Uma demanda que atravessa gerações
A urgência por uma rodovia moderna reflete um cansaço histórico da região com as promessas governamentais.
“Meu pai hoje tem 82 anos e eu já ouvia ele falar da duplicação da BR-282. Hoje eu tenho 45 anos e continuo enfrentando o mesmo problema. Não quero que minhas filhas passem pela mesma situação”, desabafou Tasca, sintetizando o sentimento de urgência da comunidade.
Próximos Passos
O projeto da ANTT ainda se encontra em fase de consulta e audiência pública. As entidades empresariais do Oeste pretendem intensificar a mobilização política para exigir que o edital definitivo seja modificado. O setor defende a inclusão obrigatória da duplicação integral entre Chapecó e Irani no contrato e uma aceleração drástica no cronograma de execução das melhorias.
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