Durante muitos anos, as cavalgadas foram mais do que simples encontros festivos: eram manifestações vivas da identidade e da história do município. Entre elas, destacou-se a Cavalgada Diacavalo ao Pinguirito, considerada a maior cavalgada pela natureza já realizadas no Brasil. Reunia cavaleiros, famílias e comunidades inteiras em torno de uma tradição que atravessou gerações e ajudou a preservar a memória do tropeirismo local.
Com o passar do tempo, no entanto, a realidade mudou. Embora ainda ocorram cavalgadas de grande porte, os custos elevados, a complexidade da organização e as inúmeras responsabilidades assumidas pelas comunidades envolvidas têm levado ao abandono de muitas delas. Manter uma cavalgada hoje exige esforço coletivo, recursos financeiros e uma logística que nem sempre encontra apoio suficiente. As que resistem tornaram-se verdadeiros símbolos de um passado que insiste em marcar presença no presente.
Essas cavalgadas remanescentes não são apenas eventos: são lembranças em movimento. Elas reafirmam as origens do município, profundamente ligadas ao tropeirismo, quando homens conduziam tropas de gado e cargueiros pela serra, subindo e descendo caminhos difíceis, enfrentando o frio, a chuva e a distância para garantir o abastecimento e a sobrevivência das vilas. Cada passo do cavalo ecoava trabalho, resistência e esperança.
Esse cotidiano duro e persistente foi registrado por viajantes do século XIX. Robert Avè-Lalement, médico francês que percorreu o sul do Brasil durante o período imperial, deixou relatos marcantes de suas jornadas. Ao narrar a chegada à Colônia Militar Santa Teresa, após uma longa cavalgada vinda de Lages, descreveu o cansaço acumulado no corpo e nos animais, o alívio ao avistar os primeiros sinais de abrigo e a sensação de vitória por vencer a serra e seus obstáculos. Seu testemunho ajuda a compreender a dimensão humana dessas travessias, feitas muito antes de estradas e veículos motorizados.
Recordar cavalgadas como a do Pinguirito é, portanto, mais do que lembrar um evento que ficou no passado. É reconhecer um modo de vida que moldou a história local, valorizando os antigos tropeiros que abriram caminhos, conectaram regiões e deixaram um legado cultural que ainda hoje se manifesta, mesmo que de forma mais rara, no som dos cascos e na poeira das estradas.
Enquanto houver memória, respeito às origens e vontade de preservar a história, o tropeirismo continuará presente — não apenas como lembrança, mas como parte essencial da identidade do município.




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