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Um ser humano estava morrendo! Ligamos para o 190 e SAMU. Estes nunca falham…

Jornalista Mauro Demarchi, 15/12/2016
 Jean Marcel

ONTEM FOI UM DIA ESPECIAL

Ontem de noite, na academia depois de um dia cansativo, ainda me preparava para iniciar meu “trote” quando um senhor teve uma parada cardíaca próximo de mim. Ele, com a esteira ainda em movimento, colocou a mão no peito e foi caindo como se alguém o tivesse desligado da tomada. O garoto que corria ao lado tirou os fones do ouvido e se afastou com olhos arregalados. Saltei para ajudá-lo, pressentindo que era grave. A esteira em que ele estava, indiferente ao homem já inconsciente, teimava em chama-lo para a corrida. Desliguei a esteira e, com a ajuda de um instrutor, desvirei seu corpo. Nesses momentos, vemos como somos frágeis e podemos partir sem despedida ou toques de clarim.
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A empresa “Help”, responsável por prestar socorro a academia conforme placa fixada na parede, se recusou a enviar a ambulância, alegando que o cadastro estava “bloqueado”. O que passa na cabeça de uma pessoa que tem os meios disponíveis para salvar uma vida, mas se recusa a fazê-lo por questão financeira? Oras, não seria possível enviar ajuda e depois cobrar a fatura?! Um ser humano estava morrendo! Ligamos para o 190 e SAMU. Estes nunca falham…
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Ele estava “sem pulso” e não respirava. Verifiquei se a língua não o estava sufocando. Precisávamos fazer alguma coisa! Estava claro que ele “partia”… Eu e outra aluna, ainda sobre a esteira, iniciamos os procedimentos de reanimação: Posiciona a cabeça! massagem cardíaca! Respiração boca-a-boca! “– Vamos, de novo!” O coração teimava em não responder. A sensação de ter dúzias de olhares – alguns aflitos, outros curiosos – nos observando enquanto tentávamos o impossível, é indescritível. Amor ao próximo era o único sentimento que nos movia. Mais de uma vez escorreu vômito pela boca e nariz, que limpávamos com toalhas de exercício lançadas pelos alunos. Nessa hora não dá pra ter “nojinho”, ele precisa voltar a respirar… o coração precisava bater…
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Suor pingava da nossa testa. Eu, a outra menina, e uma terceira que se juntou a nós, formávamos uma equipe pouco qualificada, mas determinada. Os minutos eram contados como séculos. Aflitos, enquanto agíamos também praguejávamos, ansiosos que estávamos por ouvir as sirenes lá fora. “Nada ainda?”, gritávamos enquanto fazíamos o coração do homem trabalhar à força. Alguém corria até a janela e respondia com um balançar de cabeça negativo tão preocupado quanto o nosso. Sentimos na pele que a mobilidade urbana tem consequências mais graves do que afetar nosso humor na volta pra casa…
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Inacreditavelmente, vi de relance que, próximo dali, um aluno voltava para sua sequência de exercícios.
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“– Não para!”, vozes anônimas, vindas da rodinha em volta de nós, nos encorajavam enquanto nos revezávamos no socorro.
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Um clarão vermelho intermitente surgiu na janela. Primeiro sutil, depois mais intenso, como se o céu estivesse pegando fogo.
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“ – Eles chegaram!”, alguém gritou, esperançoso, como se anunciasse a “cavalaria” para o que sobrou de um pelotão cercado de índios. Praticamente juntos, bombeiro e Samu estacionaram em frente a academia. Creio que isso foi cerca de trinta ou quarenta minutos depois do início dos procedimentos.
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Extenuados, ainda massageando o pobre homem, vimos surgir por entre os aparelhos de musculação uma equipe de médicos e paramédicos, com seus macacões azuis e luvas cirúrgicas. Na mão de um deles, uma maleta prateada 007. Não sei porque, mas senti alívio, como se ali tivesse um aparelho que religasse o homem na tomada.
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Passamos o comando. Saí de perto e fui me lavar. Me olhando no espelho do banheiro, não tinha certeza se aquele que me fitava tinha feito tudo certo.
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Quando voltei para o salão, o quadro não parecia melhor. Agora eu era só mais um que torcia por um final feliz. O homem tinha sido entubado. As expressões da equipe não eram animadoras. Mais vinte minutos se passaram, dessa vez com todos os recursos disponíveis. Ainda assim, ele teimava em não voltar… A massagem não parava… Dessa vez com mais técnica. E nada! Choque com desfibrilador… Nada! Massagem, massagem, massagem… Outro choque! Injeção de adrenalina… Uma, duas… Enquanto partia, na rodinha de alunos-observadores, informações e suposições sobre ele eram compartilhadas. Não se sabia muito… Alguém disse que era gringo. Uma aluna contou que ele não tinha ninguém aqui, mas foi desmentida pela notícia que já haviam comunicado a esposa.
Alguns já falavam dele no passado. Todos os alunos foram retirados do salão. Só ficaram a equipe, alguns instrutores da academia, eu e as duas garotas que estavam comigo durante a reanimação. O momento pedia privacidade. Ele estava morrendo…
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Quando parecia que todo o esforço tinha sido em vão… O peito começou a se mover sem ajuda! O coração, talvez mal humorado com tanta insistência, voltou a bater sozinho!
Ninguém viu, mas sorri!
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Desci e me juntei aos curiosos na frente da academia. Como moscas, mais e mais pessoas chegavam, atraídas pela luz do giroflex das ambulâncias. Localizei as duas garotas que “resgataram” o homem junto comigo e me aproximei delas. A mais baixinha, uma guerreira. Determinada, fria, incansável… Exatamente como a situação exigia. A outra, pura emoção. Falava com o homem, mesmo ele inconsciente, enquanto ajudava. Apelava para que resistisse. Me apercebi de que nunca, antes desse dia, apesar da convivência próxima, tinha trocado duas palavras com alguma delas. Agora, parecíamos velhos amigos.
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A pequena multidão que se acotovelava espiado pela porta de vidro abriu um clarão para a equipe passar com o homem equilibrado sobre a maca. Estava desacordado, mas vivo.
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Me despedi e fui embora. Em casa, me dei conta que nem perguntei o nome delas.
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Mais tarde, com fome, saí pra comer alguma coisa. Passei em frente a academia. As ambulâncias já não estavam mais ali. O pátio estava lotado de carros de clientes. Tudo parecia funcionar normalmente. No andar superior, do outro lado da vidraça, a mesma esteira botava outro aluno para correr.
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“Ah, danada!”, pensei comigo.
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Hoje à noite pretendo fazer um treino rápido. A vida segue… Porém, acho que evitarei aquela esteira.
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—-
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Obs.: hoje de manhã liguei para a academia e disseram que ele, felizmente, apesar do estado crítico, apresenta um quadro estável. Está UTI e ainda não se sabe se terá alguma sequela. Espero que não e torço pela sua recuperação. Ainda não era a “hora” dele…

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