Mauro Demarchi, editor Jornal Alfredo Wagner
Na manhã de hoje, o mundo acordou em luto com a notícia do falecimento do Papa Francisco. Aos 88 anos, o pontífice argentino deixa a Cátedra de Pedro com um legado que será debatido por décadas, senão séculos. Sua morte encerra um dos pontificados mais marcantes da história recente da Igreja Católica — e possivelmente, um dos mais desafiadores desde o Concílio Vaticano II.
Um Papa do Fim do Mundo
Quando, em 13 de março de 2013, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio foi apresentado ao mundo como o novo Papa, muitos se surpreenderam. Não apenas pela renúncia inédita de seu antecessor, Bento XVI, mas por se tratar do primeiro papa latino-americano, o primeiro jesuíta e o primeiro a adotar o nome Francisco — inspirado em São Francisco de Assis, símbolo de humildade e pobreza.
Essa escolha de nome foi o prenúncio do que viria: um pontificado centrado na misericórdia, na simplicidade, na opção pelos pobres e na crítica ao clericalismo.
A Igreja em Saída
“Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e pela comodidade de se agarrar às próprias seguranças.”
— Evangelii Gaudium, 49
O Papa Francisco colocou a expressão “Igreja em saída” no centro de seu magistério. Em sua primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium (2013), ele convocou os católicos a deixarem as zonas de conforto e irem ao encontro das periferias — geográficas e existenciais. Não era apenas uma metáfora: durante seu pontificado, ele visitou campos de refugiados, lavou os pés de imigrantes muçulmanos, almoçou com sem-teto e telefonava pessoalmente para pessoas em dificuldades.
Viagens Apostólicas: uma geopolítica da esperança
“O nome de Deus é misericórdia.”
Francisco foi um papa viajante — não tanto quanto João Paulo II, mas com escolhas muito simbólicas. Esteve em países esquecidos pela diplomacia internacional: Sudão do Sul, República Centro-Africana, Myanmar, Mongólia. Visitou Cuba, os Estados Unidos, Iraque e Emirados Árabes Unidos — sendo o primeiro papa a pisar na Península Arábica. Essas visitas não foram apenas gestos pastorais, mas atos geopolíticos, propondo o diálogo inter-religioso, a paz e a reconciliação.
Reformas e resiliência
“Como gostaria de uma Igreja pobre para os pobres!”
Francisco herdou uma cúria em crise, marcada por escândalos financeiros e morais. Uma de suas primeiras grandes iniciativas foi a reforma da administração vaticana, especialmente o Instituto para as Obras de Religião (o chamado “Banco do Vaticano”). Com a constituição Praedicate Evangelium (2022), reformou profundamente a Cúria Romana, priorizando o espírito missionário sobre a burocracia.
Também criou a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores, em resposta aos escândalos de abusos sexuais — embora tenha sido duramente criticado por avanços lentos e por, em alguns casos, defender bispos acusados, como no caso do Chile.
Definições doutrinais e polêmicas
“O clericalismo é uma peste na Igreja. É uma forma de mundanidade espiritual que afasta o povo de Deus.”
Francisco evitou grandes definições dogmáticas, preferindo um estilo pastoral e dialógico. Ainda assim, promoveu avanços significativos:
- Com Amoris Laetitia (2016), abriu a possibilidade de reintegração dos divorciados recasados à comunhão, desde que em discernimento com um padre.
- Com o Motu Proprio Traditionis Custodes (2021), restringiu o uso da Missa Tridentina, provocando críticas de setores tradicionalistas.
- Em 2023, autorizou a bênção a casais em situação irregular e a casais do mesmo sexo — desde que sem equiparação ao matrimônio cristão. Um gesto pastoral interpretado por muitos como revolucionário.
“Somos todos irmãos.”
— Fratelli Tutti, 8
Além disso, publicou encíclicas de grande impacto, como Laudato Si’ (2015), sobre ecologia integral, e Fratelli Tutti (2020), sobre fraternidade universal. Ambas marcaram sua visão de um mundo mais justo e sustentável.
“Tudo está interligado, como se fôssemos um só corpo.”
— Laudato Si’, 91
Um Papa de contrastes
Francisco foi amado e criticado em igual medida. Admirado por progressistas por seu foco nos pobres, nos migrantes e na justiça social. Rejeitado por alguns conservadores, que o acusaram de ambiguidade doutrinal e de relativismo moral.
Seu estilo direto, por vezes informal e improvisado, contrastava com a solenidade papal de outros tempos. Chamava os padres de “balconistas”, os seminaristas de “pequenos príncipes”, e os fiéis a não viverem como “cristãos de sacristia”. Suas homilias diárias em Santa Marta tornaram-se fonte constante de reflexão e debate.
O que fica para o próximo Papa?
Francisco não nomeou seu sucessor, mas moldou profundamente o colégio de cardeais que o fará. Dos 137 cardeais eleitores atuais, 99 foram criados por ele. Isso significa que a próxima escolha papal refletirá, ao menos em parte, sua visão eclesial.
“A verdade não muda. É a nossa compreensão dela que muda. Cresce com o tempo.”
Para o próximo pontífice, Francisco deixa:
- Uma Igreja mais voltada para os pobres e marginalizados.
- Um pontificado menos monárquico e mais pastoral.
- Uma cúria reformada, mas ainda resistente.
- Desafios abertos nas áreas da moral sexual, dos abusos e do diálogo com a modernidade.
- Um apelo contínuo à fraternidade e à ecologia integral como partes do testemunho cristão no mundo.
Uma memória que dividirá e unirá
“A fé não é uma relíquia do passado. Jesus não é um personagem da história. Ele vive!”
O Papa Francisco não será lembrado pela ortodoxia ou pelo academicismo. Será lembrado como o Papa que preferia gestos a discursos, que rompeu protocolos, que incomodou os confortáveis e consolou os feridos.
Para uns, um farol de misericórdia. Para outros, um sinal de confusão. Mas para todos, uma figura que não deixou ninguém indiferente.
Seu legado será debatido, amado, criticado. Mas, como ele mesmo disse, “o tempo é superior ao espaço”. E o tempo será o juiz final de sua obra.
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