As redes sociais fervilharam nos últimos dias com a notícia da intimação recebida por Jair Bolsonaro enquanto estava internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Um episódio que expôs, com nitidez desconcertante, como a política do ex-presidente rompeu até mesmo com tradições e protocolos médicos estabelecidos há décadas.
Até pouco tempo, a UTI era um espaço sagrado, reservado apenas a quem lutava entre a vida e a morte. O acesso era restrito a poucos familiares e profissionais de saúde, para proteger o paciente das infecções e assegurar os cuidados necessários. A gravidade do ambiente impunha respeito e silêncio. Mas Bolsonaro, fiel ao seu estilo performático, transformou o local em palanque. Em vez do repouso absoluto que um quadro grave exige, montou um estúdio improvisado, com equipe técnica e equipamentos para manter viva sua presença nas redes sociais.
A live realizada direto da UTI teve um efeito oposto ao desejado: acostumado a atrair centenas de milhares de espectadores, desta vez reuniu apenas alguns poucos, não ultrapassando mil visualizações consecutivas. A imagem de um líder forte e infalível, que cultivou entre seus apoiadores mais fiéis, desmoronava diante dos olhos de todos. A esperteza popular — sempre atenta às encenações políticas — não demorou a captar o teatro em cena. A rejeição, já crescente, ganhou novo fôlego.
Bolsonaro, que se autointitulava “imorrível, imbrochável e incomível“, agora se vê acuado, encurralado não apenas pelos processos judiciais, mas também pelo esvaziamento de sua base política. Seu refúgio na UTI, longe de transmitir compaixão ou indignação contra supostos abusos, revelou um político fragilizado, que, ao contrário do que pregava, teme a responsabilização pelos seus atos.
A direita evangélica, que outrora via em Bolsonaro uma espécie de escolhido divino, começa a buscar novos protagonistas. A decepção é visível, e a perda de espaço é irreversível. Cada novo episódio de autopiedade ou bravata apenas aprofunda o fosso entre o ex-presidente e o eleitorado que um dia acreditou em suas promessas.
Assim, Bolsonaro agoniza politicamente na UTI. Não pela doença física, mas pelo desgaste irreversível de sua imagem pública. A cada nova encenação, a cada novo artifício para evitar enfrentar a Justiça e a realidade, afunda um pouco mais na lama de suas próprias contradições.
Ainda haveria uma saída?
A política, como a vida, exige humildade para reconhecer erros e astúcia para se reinventar. Se quisesse recuperar seus admiradores e voltar à cena política, Bolsonaro teria que abandonar o personagem que construiu para si mesmo e adotar atitudes mais estratégicas:
- Reconhecer publicamente seus erros, demonstrando arrependimento verdadeiro, e não bravatas vazias;
- Construir pontes, inclusive com setores que antes desprezou, mostrando capacidade de diálogo e flexibilidade;
- Apresentar propostas concretas para o país, deixando de lado o discurso de permanente vitimização;
- Assumir uma postura discreta e respeitosa enquanto enfrenta seus processos, mostrando respeito às instituições;
- Investir na formação de novas lideranças, demonstrando grandeza ao preparar a sucessão em vez de insistir em seu próprio nome.
Foi com passos assim — reconhecendo erros, costurando alianças, voltando ao básico — que Lula reconstruiu sua trajetória antes mesmo da prisão. Bolsonaro, no entanto, parece incapaz de realizar a autocrítica que o novo cenário exige.
Se persistir na trilha do fanatismo e da encenação, o ex-capitão não encontrará saída. E o que poderia ser apenas um momento difícil se consolidará como um fim melancólico.
Fique informado, tenha acesso a mais de 15 colunistas e reportagens exclusivas sobre Alfredo Wagner e região! Acesse Canal no Whatsapp do Jornal Alfredo Wagner Online aqui! Jornal Alfredo Wagner Online aqui!