À medida que um município ou comunidade avança no tempo, os fatos históricos de sua origem começam a se perder, dando lugar a versões fabulosas, encantadoras — mas nem sempre verídicas. A história de Alfredo Wagner não foge a essa regra.
A Colônia Militar Santa Tereza completará 170 anos em 2023, quando o município fizer 62 anos. Ou seja, a comunidade da Colônia Militar/Santa Tereza/Catuíra esteve em atividade como principal centro regional por mais de um século antes da emancipação de Alfredo Wagner. Seis gerações se passaram desde que o primeiro agrupamento de soldados deu início ao projeto imperial de colonização desta área do Estado de Santa Catarina até a fundação do município.
Entre as muitas narrativas sobre os primórdios da região, uma das mais queridas pelos alfredenses é a da suposta visita da Imperatriz Dona Teresa Cristina à Colônia Militar para entregar a imagem de Santa Tereza à capela local. É um relato bonito e significativo, mas que esbarra em inconsistências históricas.
A imperatriz, de fato, passou por Santa Catarina em 1845, durante a primeira grande viagem do imperador Dom Pedro II ao sul do Brasil, após o fim da Revolução Farroupilha. O casal imperial esteve em Desterro (hoje Florianópolis) e nas águas termais de Santo Amaro (atualmente Águas Mornas). Porém, a Colônia Militar Santa Tereza só seria fundada oito anos depois, em 1853. Não há registros de que Dona Teresa Cristina tenha retornado ou empreendido viagem sozinha à região, tampouco de que tenha visitado o interior catarinense à época da fundação da Colônia.
Apesar disso, a capela de Santa Tereza, construída já nos primeiros anos da Colônia, possuía paramentos e imagens litúrgicas desde sua origem. Não se sabe ao certo quem os enviou. A bela pintura existente atualmente na capela, representando a entrega da imagem pela imperatriz, retrata um momento simbólico, mas que não ocorreu de fato.
O registro histórico mais confiável sobre a origem da imagem da padroeira é o de 1867, feito pelo diretor da Colônia, João Francisco Barreto. Ele declarou ter encomendado a imagem de Santa Tereza (de três palmos e meio de altura) e um crucifixo, que foram abençoados na Capital da Província e trazidos à Colônia em dezembro daquele ano. A inauguração da capela foi celebrada com novenas, fogos e intensa participação dos habitantes locais, segundo consta em relatório do diretor citado na dissertação A sentinela isolada: o cotidiano da colônia militar de Santa Thereza (1854–1883), de Adelson Brüggemann.
Outro mito recorrente na história do município é o da colonização alemã de Alfredo Wagner. Embora famílias de origem europeia — especialmente germânica — tenham vivido na Colônia Militar Santa Tereza, o município não foi oficialmente colonizado por alemães.
Os municípios catarinenses que receberam colonização organizada de europeus por meio de iniciativas governamentais foram São Pedro de Alcântara, Blumenau, Joinville, Itajaí, Brusque, Urussanga, Braço do Norte, Antônio Carlos, Corupá e Ibirama. Na Colônia Militar Santa Tereza, europeus eram bem recebidos, mas sua presença era esporádica e dispersa. Um exemplo é o relato do médico alemão Roberto Avé-Lallemant, que em 1858 registrou ter encontrado uma família alemã na região, citando apenas o nome de uma das filhas, Catarina.
Famílias como Kalbusch (de origem belga-luxemburguesa), Dummer e Schlichting aparecem em documentos da época. Os irmãos Christiano e Henrique Schlichting constam na relação de soldados de 1854. Com o tempo, filhos de imigrantes europeus nascidos no Brasil passaram a se estabelecer na região, mas isso ocorreu quando a Colônia já estava em funcionamento.
Portanto, a ideia de uma “colonização alemã” propriamente dita não se sustenta historicamente. Trata-se de uma confusão recorrente entre presença europeia e colonização organizada.
Entre a memória e o mito
A história oral é fundamental para a preservação e transmissão do passado em comunidades como Alfredo Wagner. Ela carrega vivências, afetos, impressões e ensinamentos que não estão presentes nos arquivos oficiais. Ao longo de gerações, narrativas foram contadas à beira do fogão, nas festas da igreja, nas caminhadas entre vizinhos — compondo um imaginário coletivo rico e vivo.
No entanto, como toda forma de memória transmitida de forma informal, a história oral também se transforma. Em certos momentos, para preencher lacunas de informação ou dar sentido a eventos esquecidos, a comunidade constrói mitos. Essas construções simbólicas cumprem uma função essencial: fortalecem identidades, conectam o presente ao passado e oferecem coesão cultural. O mito da visita da Imperatriz à Colônia, por exemplo, não resiste à crítica documental, mas revela algo profundo: o desejo da população de se sentir parte da grande narrativa nacional, conectada à figura de Dona Teresa Cristina e à história do Império.
Esses mitos não são “mentiras”. São respostas criativas — e muitas vezes poéticas — ao silêncio das fontes. Nascem onde falta o documento, mas sobra o desejo de pertencimento e significado. Em muitos casos, são mais reveladores da alma de um povo do que os próprios relatórios oficiais.
Cabe ao historiador o papel delicado de distinguir memória de mito, sem desrespeitar a função simbólica que os mitos exercem. O trabalho crítico não deve destruir as tradições orais, mas compreendê-las, contextualizá-las e interpretá-las com sensibilidade. Afinal, a história não é feita apenas de fatos, mas também dos sentidos que damos a eles.
Preservar a verdade histórica, nesse contexto, não é apagar o encantamento das narrativas populares, mas sim iluminá-las com novos significados. Ao reconhecer o valor da história real da Colônia Militar Santa Tereza — seus soldados, suas famílias, seus desafios — a comunidade de Alfredo Wagner reafirma sua origem com mais profundidade e dignidade. E ao compreender os mitos que criou, compreende também os sonhos que moldaram sua identidade.
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