Inspirado por Temmer em fintechs dos EUA, implantado por Bolsonaro e mantido por Lula, o Pix se tornou um sucesso graças à ação coordenada do Banco Central. Do outro lado, o modelo americano patina sob fragmentação e interesses privados — e agora, Trump critica o sistema brasileiro.
Em poucos anos, o Pix transformou a maneira como os brasileiros lidam com o dinheiro. Lançado em novembro de 2020, o sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central se tornou um fenômeno: movimenta bilhões de transações mensais, alcançou mais de 150 milhões de usuários e é hoje a principal forma de transferência bancária no país.
O que poucos sabem é que o embrião do Pix surgiu em 2016, inspirado por modelos de fintechs americanas. Mas ao contrário dos Estados Unidos, onde essas soluções não avançaram como se esperava, o Brasil soube aproveitar a oportunidade e construiu uma infraestrutura pública e interoperável, com adesão obrigatória de grandes bancos. Resultado: uma revolução silenciosa e eficiente que colocou o país na vanguarda global de pagamentos.
A origem de uma revolução digital
A ideia do Pix nasceu dentro do Banco Central do Brasil, quando um grupo de técnicos começou a estudar modelos de pagamentos instantâneos já em uso em outros países, como Índia, Reino Unido e EUA. Em 2018, o BCB oficializou um grupo de trabalho e, no ano seguinte, apresentou as diretrizes do novo sistema.
O objetivo era ambicioso: permitir transferências a qualquer hora, todos os dias, com liquidação imediata, baixo custo e total integração entre bancos, fintechs e instituições financeiras. Em vez de depender de cartões, boletos, TEDs e DOCs, o brasileiro passaria a contar com um sistema único, gratuito e universal.
O modelo americano que inspirou — mas não funcionou
Nos Estados Unidos, desde os anos 2010 surgiram iniciativas como o ClearXchange e o Zelle, operados por bancos privados através da fintech Early Warning Services. A proposta era semelhante ao Pix: permitir transferências instantâneas com uso de e-mails ou telefones como identificadores.
Porém, o avanço desses modelos foi limitado. Diferente do Brasil, o sistema americano é fragmentado, sem coordenação central. Cada banco adota sua própria solução, e o uso ainda depende de infraestruturas legadas como o sistema ACH (que pode levar dias para compensar valores). Além disso, o forte lobby das operadoras de cartão dificultou a substituição dos modelos tradicionais.
Mesmo com o lançamento do sistema FedNow pelo banco central americano em 2023, a adoção ainda é baixa. Enquanto o Pix movimentou mais de 42 bilhões de transações no Brasil em 2023, os sistemas instantâneos dos EUA ainda não ultrapassam os 15 milhões de operações mensais.
Trump critica o Pix: uso político ou real preocupação?
Recentemente, o presidente americano Donald Trump passou a mencionar o Pix de forma crítica em entrevistas e comícios, alegando que o sistema brasileiro estaria sendo usado para lavagem de dinheiro, contrabando e evasão fiscal em atividades que cruzam fronteiras. A acusação causou polêmica e gerou reações no Brasil.
Especialistas, no entanto, apontam que o uso indevido de qualquer tecnologia financeira não está ligado à sua origem ou formato, mas à fiscalização e inteligência regulatória. O próprio Pix, operado pelo Banco Central, tem integração com o Coaf e protocolos rigorosos de rastreamento. Casos de uso criminoso são pontuais e geralmente mais facilmente identificáveis do que em sistemas tradicionais.
Para muitos analistas, as declarações de Trump parecem refletir mais desconforto com o sucesso do Pix do que uma preocupação real com segurança financeira. Em meio à crescente comparação entre o sistema eficiente brasileiro e a lentidão americana em implementar um modelo semelhante, críticas como essa soam, para alguns, como tentativa de desqualificar uma inovação que o mundo já reconhece como exemplar.
A diferença brasileira: liderança do Estado e regulação firme
O segredo do sucesso do Pix está na forma como o Banco Central brasileiro liderou o projeto. Diferente dos EUA, o sistema foi construído como uma “fintech estatal”, com operação e supervisão públicas. A adesão dos grandes bancos foi obrigatória, o que garantiu capilaridade desde o primeiro dia.
Além disso, o BCB enfrentou a concorrência privada de maneira direta. Em 2020, por exemplo, vetou o lançamento do WhatsApp Pay no Brasil, argumentando que o serviço ameaçava a competição e a interoperabilidade. O recado foi claro: o sistema financeiro do país teria uma base comum, transparente e inclusiva.
Um sucesso que virou referência mundial
Hoje, o Pix é estudado por autoridades monetárias de diversos países. Modelos semelhantes estão sendo desenvolvidos ou reformulados na Colômbia, Argentina, México, e até nos próprios Estados Unidos. O Brasil passou de aluno a referência.
Mais do que uma inovação tecnológica, o Pix se tornou símbolo de como ação coordenada do setor público pode criar soluções eficientes, inclusivas e de grande impacto social. Enquanto o sistema americano ainda tenta se entender entre interesses privados e falta de padrão, o Brasil já exporta conhecimento.
Em resumo:
Trump não está de olho no Pix — mas talvez os EUA devessem estar.
Seja por omissão, resistência do setor financeiro ou falta de vontade política, os americanos permitiram que o Brasil assumisse a dianteira em um dos setores mais estratégicos da economia digital. E isso, para muitos observadores, é exatamente o que incomoda: o Pix não é apenas um sistema de pagamento — é um lembrete de que o futuro pode vir de onde menos se espera.
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