Faz mais de quarenta anos, mas a lembrança ainda vem com nitidez. Eu estava em Petrópolis, cidade de brumas e memórias imperiais, fazendo uma caminhada com alguns amigos por uma trilha quase esquecida, dessas que parecem ter sido traçadas mais pelo tempo do que pelos pés. Subíamos devagar, entre raízes retorcidas e pedras escorregadias, enquanto a mata fechada abafava os sons da cidade e abria espaço para os próprios pensamentos.
Chegamos ao alto depois de horas. Lá em cima, inesperada, uma casinha simples nos esperava. E sentado à porta, como se fosse parte da paisagem, um senhor moreno, de olhar tranquilo e profundo, contemplava em silêncio a imensidão da Baía de Guanabara. A beleza era de cortar o fôlego. Tudo lá embaixo parecia distante, sereno, quase irreal. O tempo parava ali.
Nos aproximamos. Ele nos cumprimentou com um aceno leve, como quem já esperava por aquela visita. E começamos a conversar. Não me lembro das palavras exatas, mas me lembro do sentimento que elas transmitiam: falou das pessoas que viu subirem ao poder passando por cima de tudo o que é certo. Gente que recita os Dez Mandamentos de cor, mas pisa neles como degraus, só para se manter no topo. Lembrou das famílias de almas que se formam em torno de um, conspirando em silêncio, como peças de um tabuleiro já viciado. Falou da massa que se deixa levar, encantada por discursos vazios, servindo de manobra em um jogo que não entende.
Falou… falou muito. Nós escutávamos em silêncio, concordando com gestos, pois aquelas palavras refletiam o que nós sentíamos e talvez fosse o motivo para subirmos a montanha e buscar por paisagens mais belas. Talvez fosse a altitude, talvez o cansaço, ou talvez fosse apenas aquele raro momento em que alguém escuta de verdade. Ouvíamos o velho sem pressa. Ao final, ele olhou mais uma vez para a vista, como quem revê o mundo inteiro, e disse com voz serena:
— Lá embaixo, tudo parece maior do que é. A pressa, a vaidade, a ambição… Mas quando a gente sobe, vê que tudo aquilo cabe na palma da mão. E entende que não vale a pena sujar a alma por tão pouco.
Não lembro se ele disse mais alguma coisa. Mas nunca esqueci aquele olhar. Era o olhar de quem não queria mais vencer ninguém — só compreender. E me dei conta de que talvez a maior vitória seja essa: olhar o mundo de cima e não sentir inveja, nem ódio, apenas compaixão e distância.
Voltei para a cidade com os amigos. A vida seguiu. Os jogos de poder continuaram, as farsas se refinaram. E às vezes, como hoje, o cansaço bate. Conversar com quem não enxerga dói. Mas, nessas horas, fecho os olhos e volto àquela trilha. Subo devagar. E lá do alto, encontro de novo aquela paisagem e sua paz. E, por um instante, tudo volta a fazer sentido.
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