Mesmo com uma gestão bem-avaliada em Santa Catarina e forte ligação com Jair Bolsonaro, o governador parece ignorado no xadrez presidencial. Estaria o bolsonarismo guardando Jorginho para um momento estratégico — ou seria sua fé católica um obstáculo entre tantos evangélicos de influência?
Por Mauro Demarchi
Jorginho Mello, atual governador de Santa Catarina e figura de confiança no Partido Liberal (PL), é hoje um dos poucos líderes estaduais com desempenho político e administrativo sólido. Sob sua gestão, o estado exibe estabilidade fiscal, avanço em obras públicas, controle da segurança e altos índices de aprovação. Ainda assim, fora das fronteiras catarinenses, seu nome mal circula nas conversas sobre sucessão presidencial ou protagonismo nacional.
A pergunta é inevitável: por que um governador de sucesso, alinhado com Jair Bolsonaro, não aparece como presidenciável natural num campo político que busca desesperadamente uma nova referência?
Jorginho não esconde sua lealdade ao ex-presidente. Foi seu defensor em momentos-chave, compartilha sua visão de mundo em vários aspectos e se manteve fiel ao bolsonarismo mesmo quando outros recuaram. Porém, algo parece frear sua ascensão nacional.
Uma possível explicação — pouco explorada até agora — pode estar em um fator silencioso, mas profundamente influente na política brasileira contemporânea: a religião.
Desde a eleição de 2018, o bolsonarismo firmou-se como um fenômeno fortemente enraizado nas bases evangélicas. Igrejas, pastores midiáticos, rádios comunitárias, redes sociais segmentadas e canais de mobilização atuaram como pilares da campanha e da sustentação política de Bolsonaro. Em troca, receberam espaço institucional, verbas públicas e influência direta nas decisões de governo.
Bolsonaro, embora batizado católico, sempre buscou legitimação simbólica no meio evangélico, com destaque para seu batismo no Rio Jordão e a constante presença ao lado de lideranças pentecostais.
Jorginho Mello, por sua vez, é católico praticante — e faz questão de demonstrar isso. Participa de missas, eventos católicos, peregrinações e momentos litúrgicos sem disfarces nem conveniências. Sua fé o enraíza na tradição religiosa de boa parte da população catarinense, mas o afasta do discurso hegemônico que molda hoje o imaginário da direita nacional.
No campo evangélico, a identificação religiosa não é apenas espiritual: é também um código de pertencimento político. Ser “de fora” pode significar, ainda que silenciosamente, não ser o escolhido.
Além disso, Jorginho cultiva um estilo próprio, mais técnico que performático. Não grita contra o STF, não polemiza com jornalistas, não participa das guerras culturais diárias nas redes sociais. Sua política é de gestão, não de espetáculo. E esse pode ser seu maior problema — ou sua maior força, dependendo da direção que o país tomar.
O bolsonarismo hoje ainda está preso à lógica do confronto e do barulho. Mas, caso a conjuntura mude — por desgaste do líder original, por sanções judiciais, ou pela simples saturação do eleitorado —, figuras discretas e bem-avaliadas como Jorginho Mello podem emergir como alternativas mais estáveis, mais viáveis, mais “presidenciáveis”.
A ausência dele no cenário nacional, portanto, talvez não seja um erro nem um sinal de fraqueza. Talvez seja uma reserva estratégica. O sistema, inclusive o bolsonarista, pode estar preservando Jorginho para depois — para quando tudo parecer perdido, e for preciso alguém com currículo limpo, base fiel e aparência de moderação para recomeçar o jogo.
Jorginho é o homem certo para um momento que ainda não chegou.
Mas chegará?
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