No tabuleiro da política nacional, nem sempre o inimigo é realmente um inimigo. Às vezes, é uma peça indispensável para manter o jogo funcionando. Essa lógica parece se repetir no embate entre Lula e Bolsonaro — um duelo que, mais do que ideológico, tem se mostrado estratégico.
Ou, trocado em miúdos: “A política é a arte de escolher inimigos”, como afirma Thomas Timothy Traumann, Consultor de Risco Político da Fundação Getúlio Vargas, FGV.
Recentemente, Lula tem provocado Bolsonaro pela imprensa, chamando-o de frouxo e incentivando-o a tomar atitudes mais radicais que o tirem da atual prisão domiciliar. O gesto, à primeira vista, parece hostilidade pura. Mas, no fundo, revela algo mais complexo: Lula precisa de Bolsonaro.
Embora a aprovação de Lula ainda seja alta, isso não se traduz automaticamente em votos sólidos para a reeleição. No mundo político, ele dificilmente encontrará outro adversário que sirva tão bem ao seu discurso quanto Bolsonaro. Nos anos recentes, o radicalismo de ambos ajudou a cristalizar o eleitorado em dois polos opostos, eliminando espaços para alternativas moderadas e criando um ambiente onde “nós contra eles” era a regra.
O problema para Lula é que o bolsonarismo vem perdendo força. Parte do eleitorado já percebeu a engrenagem e se cansou da manipulação que transforma a disputa política em espetáculo. Bolsonaro, preso e limitado, deixa de ser útil como “opositor ideal”. Sem ele no ringue, o roteiro eleitoral perde intensidade.
É por isso que as provocações surgem agora: a tentativa de reacender a chama radical e trazer Bolsonaro de volta ao papel de antagonista central. Um Bolsonaro inflamado, capaz de mobilizar massas, é justamente o que permitiria a Lula repetir o cenário das últimas eleições. O susto com o radicalismo seria o empurrão necessário para reconduzir o petista ao Planalto.
O problema para Lula é que não há tempo para criar um adversário à altura que desperte as mesmas emoções no eleitorado. Sem essa polarização, o clima eleitoral perde seu combustível. E talvez seja justamente nesse vácuo que surja a oportunidade para um novo tipo de política, longe da manipulação emocional que moldou o país nos últimos anos.
O alerta é claro: quando a democracia se torna refém do adversário perfeito, a eleição deixa de ser um exercício de escolha e passa a ser apenas um espetáculo previsível — onde os personagens mudam pouco, mas o público segue reagindo como esperado.
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