Nos últimos dias, um vídeo de quase 50 minutos mudou o tom das redes sociais brasileiras. Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, youtuber de humor, decidiu deixar de lado a comédia para tratar de um tema sombrio: a “adultização” de crianças e adolescentes por influenciadores digitais. Em sua denúncia, nomeou casos concretos, mostrou como conteúdos de teor sexual envolvendo menores circulam em nichos restritos e apontou o papel das plataformas na amplificação desse material.
O que torna essa denúncia tão relevante é que, se não fosse por vozes como a de Felca, apenas uma parcela da população teria conhecimento do problema. Embora os vídeos de quem explora ou expõe menores possam acumular milhares de visualizações, diante do tráfego total da internet, esse número é pequeno — um circuito fechado de produção e consumo de comportamento ilícito. Contudo, quando esse tipo de conteúdo “vaza” desse círculo e encontra alguém disposto a expor a verdade, sua gravidade vem à tona.
E aqui reside um ponto essencial: não importa se uma cena é vista por poucos ou muitos; se o ato é imoral, deve ser penalizado. E, quanto mais visível se torna, maior é a sua gravidade e o impacto social de tolerá-lo.
Quadro: Dados que mostram a gravidade mesmo nos circuitos restritos
| Indicador | Estatística relevante |
|---|---|
| Denúncias de imagens de abuso sexual infantil online | 71.867 em 2023 (recorde histórico), 52.999 em 2024 SaferNet Brasil+1 |
| Posição brasileira em denúncias globais | 5° país com mais denúncias de abuso sexual infantil online Agência Brasil+1 |
| Crescimento de denúncias em geral (MDHC) | Aumento de 22,6% em 2024, totalizando quase 290 mil relatos Senado Federal |
| Exposição infantil na internet | 9 a 17 anos: 88% usam redes; 66% criaram perfil antes dos 12 anos Wikipédia |
| Vítimas de abuso sexual (2015–2021) | Mais de 200 mil casos notificados (83 mil crianças + 119 mil adolescentes); 68% dos crimes contra crianças 0–9 anos envolvem familiares ou conhecidos Wikipédia |
Liberdade de expressão: direito e responsabilidade
O caso reacendeu um debate que já estava latente: até onde vai a liberdade de expressão? No Brasil, a Constituição garante o direito de se manifestar, mas impõe limites claros quando a fala ou imagem afetam a dignidade ou os direitos fundamentais — especialmente os de crianças e adolescentes, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A internet ampliou o alcance da comunicação, mas também criou espaços propícios ao abuso e à exploração. Influenciadores que utilizam a imagem de menores para engajamento desafiam não apenas sua própria ética, mas também a segurança e o bem-estar das vítimas.
O poder silencioso das big techs
Plataformas como Google, Meta e TikTok possuem recursos bilionários e investem fortemente em lobby para evitar regulações que as tornem responsáveis pelo conteúdo que hospedam. Atualmente, a lógica algorítmica privilegia cliques — e, infelizmente, qualquer polêmica envolvendo menores pode ser amplificada por esse sistema, mesmo que nascida em nichos restritos.
A reação política: unidade improvável
Curiosamente, o vídeo de Felca uniu vozes de diferentes espectros políticos em torno de uma pauta convergente: a proteção da infância. Parlamentares se comprometem a acelerar projetos, enquanto o governo sinaliza o envio de uma proposta ainda neste semestre.
No debate público, partidos como o PL, que tradicionalmente se colocam como defensores dos valores familiares, foram pressionados a tomar um posicionamento mais ativo — reforçando que defender a infância não deveria ser agenda exclusiva de qualquer lado político.
Enquanto correm para salvar Bolsonaro, esquecem nossas crianças
Não se trata apenas de cobrar das big techs responsabilidade sobre o que circula em suas plataformas. Trata-se, sobretudo, de cobrar coerência de quem se elegeu defendendo a família, mas hoje gasta mais energia salvando a pele de um ex-presidente do que protegendo crianças e adolescentes brasileiros. O PL, partido que se apresenta como guardião dos valores cristãos, deveria estar liderando esta luta — mas, ao contrário, entregou a bandeira da infância para a esquerda, enquanto se ocupa de agendas pessoais e eleitorais.
O que está em jogo
O caso Felca é apenas a ponta do iceberg. Ele revela:
- A urgência de responsabilizar plataformas pelo que veiculam e lucram exibindo.
- A necessidade de exercer a liberdade com responsabilidade ética e legal.
- O risco de interesses econômicos e políticos retardarem leis essenciais.
- E o fato de que conteúdos que circulam em “círculos fechados” podem esconder crimes gravíssimos, até serem expostos emergencialmente.
Cada dia sem regulação é mais um dia em que menores ficam expostos — e cada clique que supostamente “premia” esse tipo de conteúdo alimenta uma lógica perigosa.
Conclusão
O Brasil enfrenta, neste momento, um teste moral e institucional. Se formos capazes, como sociedade, de unir forças para exigir que governos e empresas defendam as crianças — sem ferir a liberdade de expressão — estaremos mais próximos de um ambiente digital verdadeiramente seguro e ético.
Essa defesa extrapola ideologia: proteger a infância não é de esquerda, nem de direita — é um dever de todos. A justiça deve ser feita: culpados devem ser punidos; inocentes, reintegrados com dignidade. Mas, ao mesmo tempo, a proteção das crianças precisa sair do discurso e virar prioridade imediata.
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