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Um Barão em Alfredo Wagner – a sátira política e a República na Colônia Militar Santa Thereza

Jornalista Mauro Demarchi, 14/08/202503/11/2025

No dia 25 de agosto de 1891, o jornal Gazeta do Sul, então publicado em Desterro (atual Florianópolis) e propriedade do Sindicato Jornalístico Catarinense, trouxe às páginas uma crônica intitulada “Brilhanturas de um barão”. À primeira vista, o texto parece apenas um retrato folclórico: um “célebre” e excêntrico barão de nome impronunciável — Nortick Nolletseheck — tentando, com “san façon” e “louca propaganda”, criar uma república dentro da própria República brasileira, sob protetorado do Império Alemão.

A caricatura, no entanto, revela muito mais que uma anedota provinciana. Trata-se de um exemplo preciso de como a imprensa republicana utilizou o humor e a sátira para desmoralizar remanescentes monarquistas e opositores políticos logo após a Proclamação da República — ainda que, no processo, tenha colocado sob luz ambígua uma colônia militar que era, à época, símbolo de progresso.


Santa Catarina e a Colônia Militar Santa Thereza no limiar republicano

Fundada em 1853, a Colônia Militar Santa Thereza (hoje Alfredo Wagner) ocupava posição estratégica no planalto catarinense, servindo como ponto de ligação entre o litoral e o interior, além de ser base de controle de fronteiras e de estímulo à colonização.

Em 1891, Santa Thereza já era muito mais que um posto militar isolado. Possuía telégrafo, circulação de jornais, livrarias e uma vida cultural que a colocava entre as comunidades mais ativas e articuladas do interior catarinense.

Com a Proclamação da República em 1889, essas áreas passaram por reorganização administrativa, e, apesar do avanço material, ainda havia lealdade à monarquia em certos círculos — principalmente entre militares reformados e colonos europeus que cultivavam vínculos simbólicos com potências como Alemanha e Itália.

Foi nesse caldo de tensões políticas e de orgulho local que a “figura” do Barão surgiu.

O enredo satírico e seu alvo

O Gazeta do Sul descreve o barão como um agitador inepto: abordando colonos, tropeiros e moradores de regiões vizinhas, tentava convencê-los das “superioridades” da república que propunha — curiosamente sob tutela alemã. Ao invés de adeptos, ganhou um inquérito da direção local, que encontrou “preciosidades” incriminadoras em seu poder.

Não há registros históricos de um Barão de Nortick Nolletseheck. O nome soa inventado, quase como um embaralhamento de sílabas germânicas, recurso típico da imprensa satírica para acentuar o ridículo e reforçar a ideia de “estrangeiro fora de lugar”.


Humor como arma política

A sátira cumpre três funções claras:

  1. Desmoralizar adversários
    O barão é descrito como um bufão, incapaz de convencer e fadado ao fracasso.
  2. Refutar boatos de ameaça estrangeira
    O medo real de que colônias pudessem servir de porta de entrada para influência europeia é dissolvido em piada.
  3. Afirmar vigilância republicana
    O inquérito rápido e a apreensão de documentos mostram que a República estava atenta e agia contra qualquer agitador.

O efeito colateral: a colônia sob sombra

Se, por um lado, o jornal atinge o “barão” fictício, por outro projeta sobre a Colônia Militar Santa Thereza uma imagem ambígua. Ao escolher esse cenário para o episódio, o texto coloca no mesmo quadro o ridículo político e a vida cotidiana da colônia, como se um lugar capaz de abrigar uma trama tão absurda fosse também um território de certa ingenuidade política.

Para leitores urbanos da capital, o riso reforçava a sensação de superioridade e distanciamento em relação ao interior. Para os próprios moradores de Santa Thereza, podia soar como desconsideração aos avanços concretos que a comunidade já ostentava — comunicações modernas, circulação de ideias e comércio ativo.

Assim, o episódio também expõe uma tensão sutil entre o centro político (Desterro) e o interior progressista: a capital, ao satirizar um agitador, corre o risco de diminuir simbolicamente o prestígio de um de seus próprios polos de desenvolvimento.


Efeitos psicológicos e sociais

Publicações como essa funcionavam como campanhas de reforço simbólico do regime republicano. Ao transformar o monarquista em motivo de riso:

  • Desencorajava manifestações públicas de simpatia à monarquia.
  • Fortalecia a identificação popular com a República.
  • Marcava opositores como anacrônicos e socialmente deslocados.

Mas, no caso específico de Santa Thereza, havia também um risco: ao usar a colônia como palco, a sátira podia sugerir que, apesar de seus progressos, ela ainda seria suscetível a ideias excêntricas ou a figuras “fora de lugar”.

Conclusão

O “Barão de Nortick Nolletseheck” provavelmente nunca existiu fora das colunas do Gazeta do Sul. Mas a sátira que o inventou é um retrato fiel de 1891: um Brasil republicano em consolidação, combatendo opositores dispersos e usando o humor como arma política.

O episódio mostra também como o riso, ainda que eficaz para minar adversários, pode ter efeitos colaterais — projetando sombras sobre comunidades que, como a Colônia Militar Santa Thereza, eram ao mesmo tempo progressistas e estratégicas para o futuro do Estado.

Entre o deboche e o elogio velado, a história do barão de papel permanece como lembrança de que, na guerra simbólica pela República, nem sempre se escolhe com cuidado o cenário da piada.

Que tal ler a edição 00151 do Gazeta do Sul? Veja logo abaixo:

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