O verdadeiro dono do poder no Brasil – As emendas parlamentares substituíram o voto ideológico e tornaram-se o novo instrumento de dominação política.
O artigo publicado recentemente pelo Intercept Brasil, intitulado “O real adversário de Lula em 2026”1, expõe algo que vai muito além da disputa eleitoral: mostra como o poder real no Brasil já não pertence ao presidente da República, mas a quem controla o orçamento — em especial, as emendas parlamentares.
O texto, que narra a trajetória de Isaac Faria, um ex-militante do PT que hoje ocupa cargo na gestão do MDB paulistano, revela de forma quase simbólica a mudança de lógica na política nacional. Isaac diz, sem constrangimento: “Eu era do PT. Agora sou Centrão.” A frase, por si só, resume uma transição silenciosa: a troca de ideologia por infraestrutura, de discurso por entrega, de princípios por verbas.
Em seu relato, o personagem explica que na época em que era filiado ao PT nunca fora chamado para discutir emendas. Agora, como aliado do Centrão, acompanha de perto cada investimento feito no bairro — ar-condicionado na escola, piscina pública, moradias populares. “A comunidade quer ver o prédio, o elevador, o equipamento funcionando”, diz ele.
Essa percepção explica por que as emendas parlamentares se tornaram o verdadeiro cimento do poder político no país. Em 2014, elas somavam cerca de R$ 9 bilhões. Em 2022, já ultrapassavam R$ 35 bilhões — e continuam no mesmo patamar sob o atual governo. De um instrumento complementar, as emendas se transformaram no núcleo do sistema de dominação territorial: quem tem mandato e acesso a esses recursos passa a ser o verdadeiro benfeitor local, independente de partido ou governo.
É esse novo modelo que explica a força do Centrão e a fragilidade do Executivo. O poder de decidir o destino dos recursos públicos foi pulverizado em milhares de redutos eleitorais, controlados por deputados e senadores que garantem fidelidade não a projetos nacionais, mas a interesses regionais e pessoais.
Lula parece ter entendido o jogo. Reduziu viagens internacionais e passou a visitar o interior do país, inaugurando obras e tentando reconectar o governo com as bases. Mas o sistema já foi institucionalizado: as emendas impositivas criaram um “parlamentarismo orçamentário” que não depende mais do presidente. Ele governa o Planalto; o Congresso governa o dinheiro.
A consequência é profunda: a democracia brasileira está sendo redefinida por dentro, sem necessidade de rupturas explícitas. O poder de veto, de chantagem e de sobrevivência política está com quem distribui os recursos — e não com quem lidera o país.
O personagem Isaac, que hoje apoia Tarcísio e Ricardo Nunes, resume a lógica que vem se consolidando em todo o território nacional: “Eu não sou adversário do Lula. Só que, com as emendas, eu vejo as coisas acontecerem com mais velocidade do que com as coisas do governo.”
O Intercept conclui o texto com uma frase que soa como advertência: “Lula pode perfeitamente ganhar a Presidência — e ainda assim perder o país.” E essa talvez seja a mais lúcida definição da política brasileira atual.
Lula venceu o maior adversário do planeta — a onda liderada por Donald Trump — e recuperou a influência brasileira em um momento crítico da história mundial. Agora se vê diante de um inimigo muito mais sutil e insidioso: o poder do dinheiro, que se infiltra nas instituições, nos partidos e até nas consciências.
Se o Trump se dobrou a astúcia de Lula, o orçamentarismo se instala silenciosamente pela força dos recursos, tornando-se a pedra no caminho que o fará parar. Não precisa de palanque, nem de discurso: basta a transferência de verbas para comprar apoios, fidelidades e silêncios.
O que se desenha, na verdade, é o fim do regime de independência entre os três poderes. O Legislativo já não fiscaliza; negocia. O Executivo já não governa; distribui. E o Judiciário, pressionado por conveniências políticas, reage mais do que age. Não se trata apenas de uma transição do presidencialismo para o parlamentarismo, mas de uma fusão entre poderes, onde a separação constitucional cede espaço a um consórcio informal de interesses.
Hoje, quem manda não é o presidente — é quem detém o dinheiro. E amanhã?
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