Num cenário marcado por debates inflamados e redes sociais que amplificam instantaneamente todo tipo de afirmação, cabe revisitar a proposta do Prof. Plínio Corrêa de Oliveira: o boato (fake news) não é só “fofoca”, mas um artefato comunicacional que se insere no tecido social com mecanismo próprio. Ele observa que o boato é artificial precisamente porque se espalha com simultaneidade em ambientes díspares, com mensagem idêntica, sem que haja uma cadeia de comunicação visível — o que sugere que não brota do acaso, e sim de uma engenharia deliberada.
Afirma o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira em seu artigo para a Folha de São Paulo, “Extremismo de direita, cebolas e sapos alados”: “Existe um método para criar e espalhar boatos, assim como existe para fazer e distribuir qualquer tipo de publicidade: um slogan, um anúncio, um livro ou um jornal. Um boato bem elaborado visa apelar à psicologia de grupos ou setores específicos de opinião. Dá forma e voz a preconceitos vagos, ressentimentos ou impressões pouco claras. Uma vez lançado, encontra indivíduos dispersos e bem-vistos que, por assim dizer, o aguardavam e o aceitavam com entusiasmo. Depois de ouvir o boato, eles o transmitem mais ou menos como alguém que come cebola e espalha seu cheiro ao falar (perdoem-nos a comparação trivial). E assim, o forte hálito dos espalhadores de boatos pode fazer com que o cheiro de cebola daquela história fantástica se espalhe por uma nação inteira”.((https://www.pliniocorreadeoliveira.info/right-wing-extremism-onions-and-winged-toads-folha-de-s-paulo-december-28-1969-2))
O boato, segundo essa lógica, opera em três momentos: (1) nasce como sugestão que atende a uma predisposição coletiva — um ressentimento, uma suspeita vaga, um preconceito latente; (2) é difundido por “portadores” que têm predisposição ou aptidão para aceitá-lo sem checar; (3) instala-se entre grupos mais amplos, e mesmo quando é formalmente desmentido, pode dormir, reaparecer e continuar a operar, tal como “ondas” de repetição mecânica.
Esse ciclo torna o boato perigoso em sociedades que valorizam a liberdade de expressão e o fluxo rápido de informação: porque ele se apoia não em argumentação racional, mas em suspiros, sussurros, “voz em off” — conforme Plínio aponta que o boato raramente se manifesta por meio do escrito robusto, pois isso permitiria refutação direta.
“Um boato bem elaborado visa apelar à psicologia de grupos ou setores específicos de opinião. Dá forma e voz a preconceitos vagos, ressentimentos ou impressões pouco claras. Uma vez lançado, encontra indivíduos dispersos e bem-vistos que, por assim dizer, o aguardavam e o aceitavam com entusiasmo. Depois de ouvir o boato, eles o transmitem mais ou menos como alguém que come cebola e espalha seu cheiro ao falar (perdoem-nos a comparação trivial). E assim, o forte hálito dos espalhadores de boatos pode fazer com que o cheiro de cebola daquela história fantástica se espalhe por uma nação inteira.” analisa o Prof. Plínio no artigo.1
Nos tempos de hoje, com algoritmos que reforçam o eco, o “micro-rumor” — aquela mensagem curta, provocativa, muitas vezes sem fonte — segue exatamente essa trilha: nasce “abaixo” e atinge “acima”, colhendo pistas emocionais mais do que lógicas. A lição fundamental é que, para enfrentar o boato, não basta desmentir: é preciso entender sua estrutura, o ambiente propício, o canal de propagação e a predisposição psicológica que o acolhe.
“O que, então, o torna artificial? É a simultaneidade sistemática com que o boato aparece em lugares que não têm comunicação entre si. É também a sua irracionalidade, ou melhor, a natureza completamente arbitrária do seu conteúdo. E, finalmente, a sua tática rigidamente uniforme: uma vez lançado, espalha-se até ser refutado; uma vez refutado, silencia-se sempre; uma vez silenciado, permanece em segundo plano até que a refutação seja esquecida; e uma vez esquecida a refutação, retorna à luta exatamente como antes. Assim, a mentira vem e vai consistentemente. Ora, essa uniformidade e método são geralmente incompatíveis com a natureza fantasiosa e caprichosa da mentira” ensina o Prof. Plínio Correa de Oliveira.
Concluindo com enfase: “Enfatizo o aspecto artificial. Por mais natural e espontânea que a propagação de um boato possa parecer em teoria, é muito improvável que ele se repita incansavelmente contra o mesmo alvo, como ondas do mar, sem que uma máquina inteligente saiba como projetá-lo ou reiniciá-lo no momento certo, dar-lhe impulso e vento favorável, injetar uma preferência por sussurros, e assim por diante”.
O boato, portanto, é o vírus sorrateiro da opinião pública: invisível, mas capaz de envenenar o diálogo. O Prof. Plínio nos lembra que ele não “acontece” por mero acaso, mas tem método: aparece simultaneamente em diferentes frentes, em tons parecidos, aproveitando-se de redes ocultas de disseminação.
Hoje, com a velocidade da internet e a polarização em alta, estamos mais vulneráveis — o boato, cujo nome atual é fake news, nem sempre vem por escrito, mas circula em grupos, mensagens de áudio, links que não checamos. A resposta não é só mais checagem, mas recusar-se a deixar que uma suspeita vaga assuma dignidade de fato. Reivindicar clareza, exigir lógica e manter o hábito de perguntar “qual é a origem desta informação?” — eis o gesto de resistência que o Prof. Plínio Corrêa de Oliveira nos sugere.
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- https://www.pliniocorreadeoliveira.info/right-wing-extremism-onions-and-winged-toads-folha-de-s-paulo-december-28-1969-2 [↩]