Nesta edição, um olhar sobre o colapso da segurança pública e a cumplicidade do Estado brasileiro
A tragédia no Rio de Janeiro, com 130 mortos em uma única operação policial, escancara uma ferida que o Brasil insiste em ignorar há mais de três décadas. E o pior: já sabemos o diagnóstico, mas seguimos fingindo surpresa diante dos sintomas.
A expansão do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital não nasceu do nada. É o resultado direto de um Estado que abdicou da política de segurança pública para se contentar com a política de extermínio, ao mesmo tempo em que, nos bastidores, produziu e aprovou leis e concessões que favoreceram o comércio de drogas, fortaleceram o tráfico e deram aos verdadeiros senhores do poder o direito de mandar e desmandar dentro do próprio Estado.
Foram trinta anos de conivência e conveniência: leis mal formuladas, anistias disfarçadas, contratos públicos e privilégios que alimentaram a corrupção e construíram um sistema de poder paralelo. O tráfico cresceu sob proteção de políticos, empresários e setores do Estado que preferiram lucrar com o caos a enfrentá-lo com coragem e planejamento.
A jornalista Cecília Olliveira, do Intercept Brasil, resumiu com precisão cirúrgica:
“Só um esforço nacional resolverá o caos deste RJ de corrupção permanente, sem política de segurança e com um governador fraco (…) Se matar resolvesse — e a gente mata muito —, o Brasil seria a Suíça.”
A frase é mais do que um lamento — é um espelho. Porque enquanto se aplaude a “guerra ao crime”, o que se faz é alimentar uma guerra social que nunca foi declarada, mas há muito tempo consome os mesmos corpos, nas mesmas periferias.
Mas há uma pergunta que o país ainda evita fazer — e que talvez explique o motivo de nada mudar:
quantos políticos, vereadores, deputados, delegados e juízes estiveram, direta ou indiretamente, na folha de pagamento do tráfico?
Quantos deles, por ação ou omissão, impediram que investigações avançassem, arquivaram denúncias, bloquearam reformas estruturais ou se beneficiaram da economia criminosa que cresce à sombra do Estado?
Levantar essa questão não é conspirar — é fazer o jornalismo e a cidadania que o país precisa.
Porque acusar apenas policiais e traficantes pelo caos é esconder a metade mais incômoda da história: a que envolve gabinetes, tribunais e assembleias.
Enquanto a ação da polícia é punida com manchete, a corrupção de toga e terno segue blindada pelo silêncio.
O que falta não é força, é inteligência e vontade política. A Polícia Federal já mostrou, em operações silenciosas, que é possível desarticular facções inteiras sem disparar um tiro. Mas isso não rende manchete, não rende voto e não satisfaz o apetite de quem confunde justiça com vingança.
Enfiar o dedo na chaga, neste caso, é reconhecer que a barbárie é uma escolha política — construída, aprovada e sustentada por leis e discursos que preferem o espetáculo da morte à complexidade da reforma. Enquanto isso, seguimos contando corpos — e a conta, como sempre, não para.
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