Há fatos que, à primeira vista, parecem claros. Mas quando observados com atenção, deixam uma sensação de estranheza — como se algo essencial tivesse sido ocultado. Foi assim que muita gente percebeu o chamado “massacre no Rio de Janeiro”.
Facções criminosas travavam entre si uma disputa sangrenta, multiplicando execuções e espalhando terror nas comunidades. A polícia, então, entrou em ação — e o resultado foi uma operação com mortos, manchetes e indignação. De repente, toda a culpa recaiu sobre os policiais que, gostemos ou não, obedeciam ordens do Estado. E as facções? Desapareceram do noticiário, como se nunca tivessem existido.
— Há algo que não se encaixa, Mauro. Comentaram alguns amigos e as perguntas não paravam!
Quantos mortos eram realmente integrantes de facções? Quantos caíram em meio ao fogo cruzado? Quantos foram executados por rivais, aproveitando a confusão? Do total de mortos, quantos foram atingidos por armas da polícia e quantos por armas criminosas? Eram todos bandidos — ou havia civis entre eles?
Nenhuma dessas perguntas parece ter resposta clara. O discurso público se cristalizou rapidamente: “a polícia é a culpada”. Mas será mesmo tão simples?
A operação pode ter sido violenta — talvez até mal planejada. Mas o que chama atenção é o silêncio sobre o contexto anterior: o número de mortos nas disputas entre facções antes da entrada da polícia, o controle territorial do tráfico e o papel das milícias que, silenciosamente, também disputam poder.
No estado do Rio de Janeiro, o levantamento do Instituto Fogo Cruzado revela que até 29 de outubro de 2024 havia 2.143 tiroteios registrados, e em 2025, até a mesma data, 2.011. As mortes por arma de fogo saltaram de 618 para 815 no mesmo período.1
No mesmo período, foram contabilizadas 150 “chacinas policiais” desde 1º de maio de 2021, com 753 mortos.1
Quanto à operação mais recente — de 28 de outubro de 2025 — a contagem oficial do governo situa pelo menos 64 mortos (incluindo 4 policiais) na ação no Complexo do Alemão e Penha.2
Porém, segundo o Ministério Público ou a Defensoria estadual, esse número pode ultrapassar 132 mortos.3
Tal discrepância entre números, vítimas e autoria é o que gera a sensação de que algo ficou fora do mapa.
O ciclo perverso que vive o Rio combina três tensões: o crime organizado (facções e milícias) que opera de modo paralelo ao Estado; a ação violenta e descontínua do Estado em “operação policial” onde a letalidade sobressai; e a narrativa pública que se foca na “culpa da polícia”, muitas vezes sem responder ao que a polícia entrou para investigar — encontros, redes, financiamento, disputas internas.
Talvez um dia, quando os arquivos policiais — comunicados internos, rastreamento balístico, videomonitoramento, coordenadas de operações — forem abertos, saibamos o que realmente aconteceu naquele dia. Até lá, resta a estranheza — e o dever de não aceitar explicações prontas.
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- https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/10/7281751-guerra-no-rio-cidade-conta-corpos-da-mais-letal-acao-policial-do-pais.html [↩] [↩]
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/en/geral/noticia/2025-10/rio-faces-deadliest-police-operation-recent-years [↩]
- https://english.elpais.com/international/2025-10-29/death-toll-from-rio-de-janeiro-police-operation-rises-to-more-than-120.html [↩]