Jornalista Mauro Demarchi (MTE – 0005225)
Nos últimos dias, Santa Catarina voltou a ser tema nacional — e, mais uma vez, não por causa de suas belezas naturais ou índices de desenvolvimento, mas por conta de uma piada que virou polêmica. Um vídeo e algumas postagens do governador Jorginho Mello (PL), feitos em tom de ironia, foram interpretados por muitos como um anúncio oficial da criação de um “passaporte” e um “visto” para entrar no estado. Bastou isso para que as redes sociais se inflamassem e a ideia — completamente fictícia — ganhasse ares de verdade.
O Boatos.org desmentiu a informação, explicando que o “Passaporte Catarina” não passou de uma brincadeira, nascida de comentários sobre a decisão da Prefeitura de Florianópolis de oferecer passagens de volta a migrantes sem moradia na capital. Ao responder a internautas que ironizavam a medida, o governador entrou no jogo e disse que iria “consultar a procuradoria” sobre a criação de um visto. Foi o suficiente para o humor se transformar em manchete, e a ironia em confusão.
O terreno fértil da confusão digital
Vivemos um tempo em que a fronteira entre o humor e a realidade política se tornou quase invisível. A cultura do meme, a linguagem ágil das redes e a falta de checagem imediata fazem com que qualquer frase dita com leveza possa ser transformada em “prova” de uma decisão oficial. O problema é que, em um ambiente de polarização crescente, a ironia é o primeiro idioma a ser mal interpretado.
O caso do “Passaporte Catarina” é emblemático. Santa Catarina tem sido palco de um debate intenso sobre migração interna, com o aumento de pessoas que buscam o estado como destino por sua qualidade de vida e economia estável. Nesse contexto, qualquer menção a “controle” ou “separação” toca em nervos expostos: há quem veja nisso apenas humor político e há quem enxergue uma ameaça de separatismo velado.
A tentação do regionalismo
A reação desproporcional à brincadeira também revela algo mais profundo — um sentimento de identidade catarinense que se fortalece à medida que o país se fragmenta em percepções regionais. Não é raro ouvir que Santa Catarina “é um país à parte” pela organização, pelos índices sociais e pelo contraste com outras regiões do Brasil. Essa narrativa, embora nascida do orgulho local, muitas vezes alimenta desconfianças e é usada politicamente para reforçar divisões.
Nesse sentido, a ironia de Jorginho Mello tocou em um tema sensível: a fronteira simbólica entre o orgulho e o isolamento. O humor, quando vem de uma autoridade, pode soar como desejo disfarçado, e isso basta para que grupos mais radicais se apropriem da narrativa.
O direito de ir e vir — e o dever de pensar antes de postar
A Constituição é clara: nenhum estado da federação pode criar restrições à livre circulação de pessoas. O direito de ir e vir é um pilar da democracia e não pode ser limitado por fronteiras regionais. Portanto, mesmo que o governador quisesse — o que não foi o caso — a criação de um passaporte interno seria inconstitucional.
Por outro lado, o episódio serve como alerta sobre o uso das redes sociais por figuras públicas. Em tempos de desinformação viral, a ironia política é uma arte perigosa: pode render aplausos dos seguidores mais próximos, mas gerar mal-entendidos em escala nacional.
Um espelho do nosso tempo
O “Passaporte Catarina” é mais do que um boato. É um espelho. Ele reflete a forma como o país lê — e distorce — suas próprias piadas, como a opinião pública se constrói sobre fragmentos de humor e como a política se faz, cada vez mais, em memes e curtidas.
No fim das contas, não há visto, não há fronteira e não há passaporte. Há apenas um país em que a ironia virou instrumento de poder e a desinformação, matéria-prima do debate público. E talvez esse seja o verdadeiro risco que atravessa o Brasil — muito mais sério do que qualquer “separação” inventada nas redes.
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