Consumidores mais orientados ao bem-estar passam a privilegiar produtos com impacto real na rotina
O comportamento do consumidor vive uma transformação profunda, marcada por uma busca crescente por saúde, propósito e valor real. Essa mudança não só altera prioridades de compra, como também redefine datas-chave do varejo — incluindo a Black Friday, que aos poucos se distancia da lógica do consumo acelerado.
Com um cenário global permeado por incertezas econômicas e instabilidade política, o consumidor se torna mais seletivo. Tendências analisadas pela NielsenIQ e pela WGSN mostram que a austeridade leva à troca do volume de compras por escolhas que ofereçam benefícios concretos e duradouros.
Confiança na marca, durabilidade, transparência sobre origem e processos, além de propósito claro, ganham protagonismo. O consumidor atual busca produtos e serviços que reflitam um estilo de vida mais saudável e coerente com valores éticos, como sustentabilidade. Na beleza, por exemplo, as tendências apontadas pela WGSN reforçam a convergência entre estética, bem-estar e rotinas de autocuidado, que vão do descanso à prática regular de exercícios.
“Existe uma clara mudança no estilo de vida em todas as idades, e o consumo do bem-estar é uma consequência disso”, destaca Fred Rocha, autor de O novo jeito de vender (mais e melhor) e profissional com mais de 30 anos de experiência no varejo. Ele observa ainda uma “espiral positiva” de novos hábitos, impulsionada por fenômenos paralelos, como o avanço dos medicamentos para emagrecimento.
“Esse movimento já afeta a previsibilidade dos mercados de alimentos e bebidas, com a redução no consumo de álcool e ultraprocessados e o aumento da procura por opções mais saudáveis”, explica.
O mercado trilionário do wellness
Essa mudança de prioridade se reflete no avanço do mercado global de bem-estar. Segundo o Global Wellness Institute (GWI), a economia do wellness — que abrange atividade física, alimentação saudável, beleza, cuidados pessoais, saúde mental e turismo de bem-estar — movimenta trilhões de dólares e deve alcançar US$ 9 trilhões até 2028. A projeção confirma que o bem-estar deixou de ser nicho para se tornar uma lente através da qual o consumidor avalia produtos e serviços, exigindo do varejo estratégias mais autênticas e voltadas a benefícios de longo prazo.
Menos volume, mais valor
Essa nova mentalidade também reorganiza a Black Friday. Historicamente marcada por descontos agressivos e grandes volumes de venda em categorias como eletrônicos, a data passa a ser influenciada por emoções ligadas ao autocuidado e ao “autopresente”. O preço continua relevante, mas não é mais o único fator: a sensação de investir em qualidade de vida pesa cada vez mais na decisão de compra.
Esse movimento aparece também em um levantamento da Serasa Experian, de julho: 33% dos brasileiros dizem estar mais atentos à saúde e 35% pretendem aumentar o consumo de produtos ligados ao autocuidado.
“As mudanças culturais do pós-pandemia mostram que os cuidados com a saúde não são mais um luxo, e sim uma necessidade da rotina”, afirma Rafael Dutra, CEO da Elements, empresa de mobiliário ergonômico que mais cresce no país — seu faturamento avançou 200% no último ano, um sinal de que as preferências do consumidor mudaram.
Os motivos são claros. A OMS aponta o Brasil como líder global em estresse: 74% da população relata episódios que afetam sua qualidade de vida. A ansiedade atinge 45% dos brasileiros, com maior incidência entre mulheres e jovens. O impacto chega ao corpo: em 2024, 3,5 milhões de trabalhadores receberam benefício por incapacidade temporária — alta de 39% —, com dores na coluna e hérnia de disco no topo das causas, segundo o Ministério da Previdência Social.
Nesse contexto, marcas e varejistas que assumem compromisso real com saúde e bem-estar, oferecendo informações claras e confiáveis, se conectam de forma mais profunda com esse novo consumidor. O sucesso na Black Friday — e no varejo como um todo — passa a depender menos do desconto e mais da capacidade de entregar valor genuíno, alinhando-se ao consumo consciente e à tendência global de hiperpersonalização.
Jerônimo Rubim
atrecomunicacao.com.br
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