A História de Alfredo Wagner: do Império à República, em três fases
Por Mauro Demarchi
Atualizado em 09/08/2020
Quando um município é oficialmente constituído pelas autoridades políticas, sua população já percorreu uma longa trajetória — marcada por conquistas, dificuldades, avanços e retrocessos. Assim também foi com Alfredo Wagner, a Capital Catarinense das Nascentes.
Administrativamente, Alfredo Wagner nasceu em 29 de dezembro de 1961. Sua história, no entanto, começou muito antes — mais de noventa anos antes dessa data. Começou formalmente em 1853, com o Decreto Imperial que criou a Colônia Militar Santa Thereza, e, de forma extraoficial, possivelmente ainda antes, com a passagem de Dom Pedro II por Santo Amaro da Imperatriz, em suas viagens pelo sul do país.
De modo geral, a formação do atual município pode ser compreendida em três grandes fases históricas:
Colônia Militar Santa Thereza (Catuíra), Barracão e, por fim, Sombrio.
1ª Fase – A Colônia Militar Santa Thereza
Por decreto imperial rubricado por Dom Pedro II, foi criada, em 1853, uma colônia militar entre a capital da Província de Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), e a cidade serrana de Nossa Senhora dos Prazeres das Lages (hoje, Lages).
O caminho de tropeiros já era utilizado por viajantes e encurtava significativamente a viagem entre o litoral e o planalto, mas era inóspito, perigoso e sujeito a ataques, inclusive de grupos indígenas instigados por criminosos. Para garantir segurança e ocupação da região, o Império determinou a instalação da colônia militar aos pés do Morro do Trombudo. No ano seguinte, contudo, o núcleo foi transferido para onde hoje se localiza a comunidade de Catuíra.
Nos primeiros anos, o desenvolvimento foi lento, marcado por dificuldades geográficas e pela precariedade das comunicações com a capital. Ainda assim — detalhe frequentemente ignorado por alguns historiadores — a Colônia Militar Santa Thereza chegou a abrigar mais de 500 famílias, com produção expressiva de grãos, mel, aguardente e gado, comercializados em centros como Desterro e Lages.
Tamanha era a importância da colônia que produtos ali cultivados foram enviados pelo Império a exposições internacionais, demonstrando o interesse governamental no desenvolvimento da região. À época, Santa Thereza era presença constante nos jornais, mais do que Alfredo Wagner nos dias atuais, pois ocupava um ponto estratégico cujo progresso simbolizava o próprio avanço de Santa Catarina.
A Colônia Militar Santa Thereza foi, ainda, berço de diversos municípios da região, como Bom Retiro, Imbuia, Ituporanga e Leoberto Leal. Muitos soldados-colonos, após cumprirem suas obrigações, permaneciam na colônia; outros vendiam seus lotes e partiam em busca de novos destinos.
O Governo Imperial, por meio do Ministério do Exército, mantinha salários, estradas, posto de saúde e igreja — esta última atendida por um capelão militar, responsável pela vida espiritual da comunidade.
Essa fase se encerrou com a Proclamação da República, quando as colônias militares foram desativadas. Santa Thereza passou brevemente à jurisdição de São José, mas logo foi incorporada ao município de Palhoça. Paralelamente, iniciou-se a busca por um novo traçado da estrada Lages–Florianópolis, que desviasse da antiga colônia. Apesar dos esforços dos moradores para manter o fluxo de viajantes, a decisão republicana de encerrar essa etapa já estava tomada.
2ª Fase – Barracão
Essa fase estendeu-se por cerca de vinte anos e teve início com o novo traçado da estrada entre o planalto e o litoral, obrigando tropas e cargueiros a abandonarem o caminho tradicional.
O Barracão surgiu como ponto de apoio quando o tráfego de tropeiros aumentou e, com a construção da ponte de madeira, expandiu-se. A criação da Paróquia Bom Jesus antecedeu, em alguns anos, a emancipação político-administrativa do município.
Convém lembrar que “Barracão” era um nome comum em Santa Catarina. Pesquisas em jornais antigos revelam inúmeras referências, sendo o Barracão de Gaspar o mais citado, (tornando-se depois o município de Gaspar) enquanto o nosso aparecia com menor frequência nos periódicos da época.
3ª Fase – Sombrio
Esta é, talvez, a fase menos compreendida da história de Alfredo Wagner. Muitas vezes, Sombrio é confundido com Barracão — uma confusão que obscurece o papel central que esse núcleo teve no desenvolvimento do município.
Foi no Sombrio que surgiram equipamentos urbanos importantes, como cinema, delegacia, cartório e prédios públicos. Nesse contexto, merece destaque a figura de José de Campos, cidadão visionário que adquiriu terras, doou áreas para o Colégio Municipal e para a Prefeitura de Bom Retiro, pois na época o que hoje é Alfredo Wagner, pertencia ao município vizinho. José de Campos realizou loteamentos e construiu sua residência em alvenaria — algo raro para a época. É também um dos poucos prédios antigos ainda de pé em nossa cidade.
O nome Sombrio se explica pela localização aos pés de um morro íngreme, que retardava a incidência solar. A área, frequentemente alagadiça e pantanosa, exigiu grandes esforços de aterramento para se tornar habitável. Aos poucos, essas transformações foram sendo realizadas.
Hoje, o Sombrio — mais conhecido como Praça — é o centro administrativo, financeiro, político e social de Alfredo Wagner. Enquanto isso, a antiga Colônia Militar Santa Thereza (Catuíra) manteve sua vocação agrícola, e o núcleo do Barracão voltou a crescer, abrigando novas residências.
Sem espaço físico para expansão horizontal, o Sombrio cresce agora em qualidade urbana, edificações e infraestrutura, consolidando-se como o coração da cidade.
Fontes e metodologia
Este artigo foi elaborado a partir da análise de jornais do século XIX e início do século XX disponíveis na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, com destaque para periódicos publicados em Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis), Lages e outras localidades catarinenses. As informações foram cruzadas com registros administrativos do período imperial e republicano. Além destas fontes, foi utilizado o excelente livro José de Campos – uma História para Contar de Celita Irene Campos Angeloni, publicado pela Editora Secco, em 2007. O livro fornece informações valiosas sobre a história do município antes de sua emancipação administrativa.
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