A tradição oral relata que o Soldadinho morreu congelado na comunidade hoje conhecida pelo seu nome, em fins do século XIX.
Segundo essa narrativa, numa noite de frio intenso — descrita por muitos como uma forte nevasca — soldados retornavam à Colônia Militar Santa Thereza quando um deles, mais velho e doente, foi ficando para trás. Exausto, perdeu-se dos companheiros enquanto a noite avançava sob condições climáticas severas. Quando sua ausência foi percebida, o frio e a escuridão já impediam qualquer tentativa de retorno.
Na manhã seguinte, os soldados voltaram ao local e o encontraram morto, congelado, junto a um grande pinheiro, tentando acender uma fogueira para se aquecer. Ali mesmo o sepultaram. A partir desse episódio, teria se iniciado uma devoção espontânea a esse soldado desconhecido, com pedidos de intercessão junto a Deus.
A piedade popular e a data da romaria
A piedade popular sempre acompanhou o túmulo do Soldadinho com grande devoção. Durante décadas, foi tradição no município a realização de uma romaria anual, reunindo fiéis de diversas comunidades do interior que se dirigiam ao Morro do Maurício. Ali rezavam o rosário e, em seguida, realizavam uma confraternização simples, partilhando os alimentos que cada um levava.
A data escolhida era o dia 31 de outubro.
Esse costume foi interrompido quando um sacerdote afirmou que os despojos do soldado já não repousariam mais naquele local, pois teriam sido removidos por familiares. A partir desse episódio, as visitas diminuíram significativamente, e a data associada à morte do Soldadinho acabou sendo quase totalmente esquecida — hoje lembrada apenas pelos moradores mais antigos, em geral com mais de 60 anos.
Se a tradição popular manteve, por tanto tempo, a romaria no dia 31 de outubro, é razoável supor que essa data estivesse ligada à memória do falecimento do Soldadinho.
Inverno ou primavera?
A tradição oral afirma que o Soldadinho morreu em uma noite extremamente fria, o que parece indiscutível. No entanto, isso não significa necessariamente que sua morte tenha ocorrido no inverno.
O fato de a romaria ocorrer em 31 de outubro — pleno período da primavera — levanta a hipótese de que o episódio possa ter ocorrido fora do inverno rigoroso, talvez durante uma onda de frio tardia, fenômeno que, embora raro, é conhecido na região Sul do Brasil.
Contexto climático histórico
Estudos climatológicos e registros históricos indicam que o Sul do Brasil enfrentou diversas ondas de frio severas e até nevascas ao longo do século XIX. Pesquisas acadêmicas apontam ocorrências documentadas de frio extremo nos anos de 1858, 1862, 1867, 1870, 1871, 1873, 1875, 1879 e 1885, especialmente no planalto do Rio Grande do Sul — região limítrofe à Serra Catarinense .
O episódio mais emblemático ocorreu em 7 de agosto de 1879, quando a cidade de Vacaria (RS) registrou mais de dois metros de neve acumulada, considerada a maior nevasca já documentada no Brasil. Esse evento demonstra que, naquele período, massas de ar polar extremamente intensas atingiam regularmente o Sul do país .
Embora não existam registros diretos de neve na localidade associada ao Soldadinho, esses dados confirmam que noites excepcionalmente frias — inclusive fora do inverno — eram historicamente possíveis no final do século XIX, tornando compatível a tradição oral que relata sua morte em condições climáticas extremas.
Considerações finais
Muita pesquisa ainda precisa ser realizada para esclarecer com maior precisão a data, as circunstâncias e a identidade do Soldadinho. Ainda assim, a convergência entre tradição oral, registros cartográficos, devoção popular e contexto climático histórico oferece um quadro coerente e plausível para compreender esse episódio que marcou profundamente a memória local.
Que o Soldadinho — que, segundo a tradição, auxiliava viajantes perdidos a encontrar o caminho — nos ajude também a encontrar novas informações sobre sua vida e sua morte, iluminando os caminhos da pesquisa histórica e da memória de Alfredo Wagner.
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