Cheguei ao lugar sem expectativa.
A pauta era curta, quase burocrática: uma antiga caverna, um monge recluso, visitantes ocasionais. Nada que rendesse manchete. Ainda assim, havia algo no caminho até lá que contrariava o tom turístico. O silêncio não era apenas ausência de ruído; parecia deliberado.
O guia falava pouco. Disse que o monge vivera ali por décadas, reduzindo gradualmente tudo o que o ligava ao mundo: objetos, palavras, alimento. Contou isso como quem repete uma história já gasta, mas evitou entrar na caverna. Ficou do lado de fora, como se houvesse um limite invisível.
Lá dentro, a luz diminuía rápido. As paredes eram irregulares, sem qualquer sinal de ornamentação. Nada de ícones, nada de símbolos religiosos evidentes. Apenas pedra e marcas do tempo. Pensei que fosse mais um lugar onde projetamos significados que gostaríamos de encontrar.
Foi então que percebi a parede do fundo.
Havia uma inscrição extensa, talhada diretamente na rocha. Não reconheci a escrita. Não era algo que eu pudesse associar a um idioma conhecido. Ainda assim, bastou alguns segundos para entender o sentido. Não como tradução, mas como evidência. Como quando se entende um gesto sem que ele precise ser explicado.
A leitura não provocou espanto imediato. Não houve arrepio, nem revelação súbita. O efeito foi mais sutil — e mais persistente. A sensação de estar diante de algo que não pedia concordância, apenas atenção.
Registrei a inscrição. Uma única imagem, sem enquadramento artístico, quase por obrigação profissional. Logo depois, guardei o equipamento. Algumas coisas não pedem repetição.
A leitura não provocou espanto imediato. Não houve arrepio, nem revelação súbita. O efeito foi mais sutil — e mais persistente. A sensação de estar diante de algo que não pedia concordância, apenas atenção.
Fiquei ali mais tempo do que o necessário para uma matéria. Não fotografei. Anotei pouco. Havia um respeito involuntário, como se qualquer tentativa de registrar fosse uma forma de empobrecimento.
Quando saí, o guia não perguntou o que eu havia visto. Apenas fez um leve gesto com a cabeça, como quem reconhece um estado de espírito. No caminho de volta, pensei no quanto buscamos textos que confirmem nossas certezas e no quanto evitamos aqueles que nos obrigam a escolher.
A inscrição dizia:
Vida longa aos bons.
Que seus caminhos sejam afastados das artimanhas e ciladas do mal.
Que seus dias se prolonguem com saúde, paz e harmonia no seio da família reunida.
Que suas ações sejam profícuas e exitosas.
Que não lhes falte vigor enquanto houver propósito.
E que o mal não tenha vida longa.
Que encontre obstáculos antes de ferir.
Que seus intentos se esvaziem em desilusões e insucessos.
Que não encontre herança, continuidade ou descendência.
Que seus dias sejam breves e não deixem rastro.
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