A leitura dos jornais de época nos permite viajar no tempo e compreender as bases das instituições que conhecemos hoje. No exemplar de 11 de janeiro de 1914 do jornal O Dia, de Florianópolis, um edital da Directoria da Instrucção chama a atenção. Assinado pelo então diretor H. Nunes Pires, o documento convoca candidatos para preencher dezenas de “cadeiras” (vagas para professores) em todo o estado de Santa Catarina.
O texto não é apenas uma lista de vagas; é um registro sociopolítico de uma era de transição na educação pública brasileira.
1. A Geografia de um Estado em Expansão
O edital lista municípios e localidades que, na época, ainda estavam em fase de consolidação. É curioso notar nomes como “Imahuy” (Imbituba), “Coritybanos” (Curitibanos) e “Itajahy” (Itajaí), com grafias da época. O documento revela a capilaridade da educação, chegando a comunidades rurais e distritos isolados, como “Rancho Queimado” (então vinculado a Palhoça) e “Hansa” (atual Ibirama, na região de Joinville/Blumenau).
2. Critérios de Acesso e a Figura do “Normalista”
Para se candidatar a uma vaga de professor em 1914, as exigências eram claras, mas refletiam o rigor moral da época:
- Nacionalidade e Idade: Era necessário ser brasileiro e ter mais de 18 anos.
- Moralidade: O candidato precisava apresentar a “folha corrida” (atestado de antecedentes) dos últimos cinco anos.
- Vantagem Acadêmica: O edital faz uma distinção importante para os “normalistas” — aqueles formados pela Escola Normal. Enquanto os candidatos comuns precisavam passar por provas e exames, os normalistas eram dispensados destas, bastando apresentar o diploma. Isso demonstra o esforço do estado em profissionalizar o magistério.
3. A Divisão de Gênero nas Escolas
Um dos pontos mais reveladores do edital é a última cláusula: “As senhoras só podem requerer escolas do sexo feminino ou mixtas.” Nessa época, as escolas eram divididas entre masculinas, femininas e “mixtas”. A restrição de que mulheres não poderiam lecionar em escolas masculinas evidencia o conservadorismo social e a rígida separação de gêneros que ditava a organização do espaço público e educacional no início da República.
4. A Estrutura Administrativa
O edital menciona a figura do “Inspector Escolar”, autoridade local responsável por receber os requerimentos em cada distrito. Na Capital (Florianópolis), como não havia um inspetor específico para o “Canto da Lagoa”, o processo era gerido diretamente pelo Diretor da Instrução. Isso mostra uma tentativa de descentralização administrativa, embora o controle final ainda fosse fortemente concentrado na capital.
Conclusão
Este edital de 1914 é um testemunho da construção da identidade catarinense. Ele mostra um estado preocupado em levar a alfabetização para o interior, ao mesmo tempo em que mantinha as tradições e divisões sociais de seu tempo. Hoje, nomes de cidades como Cresciuma, Brusque e Lages continuam fortes, mas o modelo educacional que as serve evoluiu drasticamente desde que H. Nunes Pires assinou aquele documento há mais de um século.
Na fotografia em destaque, antigo registro da escolinha no Rio Pio em Nova Veneza em 1914.
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