Não sei se foi o espanto ou a coincidência histórica que primeiro me chamou a atenção. Ao ler, num jornal catarinense de 1953, um artigo que se declarava abertamente inspirado em um romance do início do século XX, tive a sensação incômoda de que o texto não falava do seu tempo, mas do nosso.
O articulista — que assina apenas com iniciais — não se limita a comentar um livro. Ele o utiliza como lente. Eduardo Zamacois, romancista espanhol, havia descrito décadas antes o método pelo qual uma pessoa comum pode ser transformada em lenda pela ação contínua da opinião pública. Em 1953, esse leitor catarinense reconheceu o mecanismo em funcionamento diante de seus olhos.
É difícil não fazer o mesmo exercício hoje.
Talvez o leitor também sinta esse desconforto: a clareza com que um romance antigo descreve processos que julgamos modernos. A fabricação da reputação, a repetição que substitui o fato, o silêncio que legitima a versão dominante. Nada disso soa estranho. Pelo contrário, soa familiar demais.
O que me surpreendeu não foi apenas a lucidez de Zamacois, mas a naturalidade com que um jornal de Florianópolis, há mais de setenta anos, publicou essa leitura sem escândalo, sem ironia, sem disfarces. O método estava ali, nomeado. A lenda, explicada. A opinião pública, desmontada.
Talvez a pergunta que reste não seja por que eles compreenderam tão bem. Mas por que nós, compreendendo, ainda nos deixamos conduzir.
Ao longo do artigo de 1953, o autor insiste num ponto que merece ser relido com atenção: a lenda não nasce de um grande feito, mas da insistência. Não é o mérito que a sustenta, mas a repetição. A opinião pública, diz Zamacois pela voz do articulista, não é formada por exame, mas por eco.
Aqui talvez valha uma pausa. Porque o que está sendo descrito não é um truque político sofisticado, nem um plano oculto. É algo mais simples e, por isso mesmo, mais eficiente. A lenda cresce quando deixa de ser questionada. Quando passa a circular sozinha. Quando o contraditório se cansa antes dela.
O articulista catarinense parece perceber isso com nitidez desconcertante. Em nenhum momento ele acusa diretamente, não aponta nomes, não denuncia escândalos. Limita-se a mostrar o mecanismo em funcionamento. Como quem diz: observem, é assim que acontece. Sempre foi.
Talvez seja esse o ponto mais incômodo da leitura. Não há vilões caricatos. Não há conspiração. Há apenas um público disposto a aceitar a versão que melhor se ajusta às suas expectativas. A lenda não se impõe pela força. Ela é acolhida.
Quando leio esse texto hoje, não consigo evitar a sensação de que ele descreve menos um tempo histórico específico e mais um comportamento recorrente. Mudaram os meios, mudaram os ritmos, mudaram os nomes. Mas a disposição para substituir a realidade por uma narrativa confortável permanece.
Em 1953, a lenda se espalhava pelo jornal, pela conversa repetida, pelo silêncio cúmplice. Em 2026, ela percorre caminhos mais rápidos, mais fragmentados, mais invisíveis. Ainda assim, reconhecíveis. O método não se perdeu. Apenas se aperfeiçoou.
Talvez por isso esse artigo antigo ainda incomode. Ele não acusa o passado. Ele nos observa.
Talvez o maior mérito desse artigo de 1953 não esteja na crítica que faz, nem na lucidez com que desmonta o mecanismo da opinião pública. Seu mérito maior pode ser outro: ele nos lembra que nada disso é novo.
Um romance do início do século passado ofereceu o método. Um leitor catarinense o reconheceu em funcionamento no seu tempo e teve a coragem de dizê-lo em voz alta. Setenta anos depois, lemos o mesmo texto com a estranha sensação de que ele foi escrito ontem.
A lenda continua a nascer do mesmo modo. A diferença é que hoje ela se move mais rápido, fala mais alto e parece não precisar de autoria. Já não sabemos bem quem a criou, apenas a repetimos.
Talvez seja por isso que valha a pena reler este artigo com atenção. Não para julgar seus personagens, nem para localizar seus alvos ocultos, mas para perceber o quanto também estamos dentro do processo que ele descreve.
A pergunta que fica não é sobre o passado que ele denunciou.
É sobre as lendas que estamos ajudando a sustentar agora —
e se ainda sabemos distingui-las dos fatos.
Eis o original e logo abaixo a transcrição:

Transcrição: A Lenda e a Opinião Pública
Eduardo Zamacois numa excelente obra romanceada, escreveu “A Opinião Pública”. Em síntese, o livro defende uma tese que expõe com clareza e limpidez de conceitos o seguinte: a formação da opinião pública através da lenda.
Ele mesmo o afirma na última frase do livro: “Atrás do cadáver triunfante imortal, como poeira de ouro, voava a lenda”…
Faz tempo, criou-se em nosso Estado uma dessas lendas em torno de um homem e de um nome. Contavam-se coisas de fazer vibrar uma pedra!
Um estadista!
Um homem de larga visão e insensível a qualquer influência alheia, isto por que tinha cérebro para se governar a si mesmo e um tirocínio da vida prática como muito poucos nesta terra.
Um homem de acordo com o adjetivo em voga — dinâmico!
Um homem com capacidade de governar e fazer feliz um povo.
A lenda crescia com aquele desembaraço de vôo que não encontra impecilho como afirma Zamacois.
E, de tal forma foi crescendo e envolvendo o “homem”, que o fizeram governador do Estado.
Um Estado feliz, com seu povo feliz, com as suas finanças equilibradas e sobre tudo como uma das unidades da Federação mais invejadas.
Um Estado onde a Instrução Pública era citada como organização perfeita e representativa da cultura de um Governo e de seu Povo.
Um Estado onde imperava a ordem e a lei, dando pouco trabalho a Justiça, que não tinha “casos” cabeludos para resolver.
A lenda, que havia colhido em suas malhas impiedosamente o “homem”, continuou a obra. Vieram novas promessas. O que havia não prestava. Agora é que o povo veria com seus próprios olhos, o que era governo, fartura, justiça, tudo, tudo, enfim, até mesmo abundância em gêneros e em prédios nababescos, água corrente e água fresca e sombra, para descanso do espírito!
O povo encheu-se de esperanças novas e comeu do reparto de um monstruoso bolo, preparado com os mais sutis e esmerados dotes da arte técnica dos grandes mestres em culinária. Um portento. Uma coisa nunca vista.
Os “gulosos” e até os que estavam em dieta por causa da diabete se fartaram, lambusando-se, limpando os lábios açucarados com a língua.
Depois, a tristíssima revelação!
Só lenda. Pura lenda. Somente lenda e nada mais.
As decepções foram e são tremendas.
Choro, lágrimas e lama…
Injustiças, calamidades de toda a espécie em terra e no ar.
Gritos, pragas, invejas, ciúmes, tristezas, secas, enchentes, penúria, tudo…
Qualquer semelhança com o governo atual é pura coincidência ou então, pura lenda!
A. F. S.
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