Por José di Oliveira*
Há textos que informam. Outros inquietam. Alguns poucos fazem as duas coisas — e ainda nos obrigam a parar por um instante e perguntar: em que mundo eu acordei hoje?
Foi assim ao ler uma newsletter aparentemente rotineira sobre tecnologia. Bastaram poucas linhas para que um sinal de alerta se acendesse. Não pelo conteúdo isolado, mas pela constatação que ele escancarava: não estamos apenas vivendo mudanças — estamos atravessando uma mudança de era.
E o divisor de águas tem nome, sobrenome e infraestrutura: tecnologia.
Tecnologia deixou de ser ferramenta. Virou poder.
Durante décadas, a tecnologia foi tratada como meio: acelerar processos, ampliar comunicação, facilitar a vida. Agora, ela se revela como estrutura de poder. Quem controla chips, dados, energia, plataformas, algoritmos e insumos estratégicos controla não apenas mercados — controla o ritmo do futuro.
Não se trata mais de inovação no sentido romântico do termo. Trata-se de hegemonia.
O Fórum Econômico Mundial de 2026, em Davos, ofereceu um retrato simbólico desse momento: inteligência artificial no centro do palco, oportunidades de negócios sob holofotes intensos, enquanto temas humanitários e sociais ocupavam salas laterais, quase constrangidas. O recado é claro — ainda que não seja dito em voz alta.
O mundo está sendo redesenhado — com silício, código e energia
A reorganização geopolítica em curso não gira apenas em torno de exércitos ou moedas. Gira em torno de infraestrutura tecnológica. Hardware, software, dados e energia formam o novo eixo de poder global.
A disputa por terras raras, por cadeias de suprimento independentes, por energia capaz de sustentar data centers gigantescos não é detalhe técnico: é estratégia civilizatória.
A China entendeu isso cedo. Os Estados Unidos reagiram. A Europa observa, hesita e tenta se reposicionar. Rússia pressiona. Regiões antes periféricas entram no radar não por ideologia, mas por aquilo que escondem sob o solo, o gelo ou o mar.
O degelo da Groenlândia, por exemplo, não é apenas um drama climático — é uma abertura geopolítica. A tragédia ambiental vira oportunidade econômica. Negar a crise climática, nesse contexto, pode não ser ignorância. Pode ser cálculo.
E nós, onde ficamos?
Diante desse cenário, a pergunta que brota não é apenas coletiva. Ela é íntima:
Como eu me preparei para essa era?
E, mais importante, como vou sobreviver a ela?
Sobreviver aqui não significa resistir fisicamente, mas manter autonomia intelectual, senso crítico e humanidade num mundo cada vez mais mediado por algoritmos, plataformas e sistemas opacos.
Talvez a preparação não esteja apenas em aprender a usar novas tecnologias, mas em compreender quem as controla, a serviço de quê e com quais consequências.
Talvez sobreviver seja não aceitar passivamente que eficiência substitua justiça, que automação substitua sentido, que velocidade substitua reflexão.
Um ano que os livros de história vão sublinhar
Arrisco dizer: os livros didáticos do futuro dedicarão boas páginas a este momento. E talvez escrevam que 2026 não foi o início da mudança — mas o ano em que ela se tornou visível demais para ser ignorada.
A tecnologia não é neutra. Nunca foi. Hoje, mais do que nunca, ela é território, arma, moeda e linguagem de poder.
Ignorar isso é abdicar do debate. Entender isso é o primeiro passo para não ser apenas espectador — mas sujeito — numa era que se impõe com a força de um gêiser.
*José di Oliveira jornalista free-lancer e ensaísta goiano, colabora com diversos jornais nacionais e internacionais. Pode ser contactado pelo email: [email protected]
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