Em política, coincidências raramente existem. Movimentos aparentemente desconectados costumam obedecer a uma lógica mais ampla, em que ações e reações se alimentam mutuamente. Observando o cenário brasileiro recente, especialmente a partir de 2018, torna-se difícil ignorar a sensação de que o jogo político nacional funciona menos pela disputa de projetos e mais pela administração controlada de antagonismos.
A prisão de Lula, em 2018, abriu caminho para a eleição de Bolsonaro. A ascensão de Bolsonaro, por sua vez, criou o ambiente político, institucional e emocional que viabilizou o retorno de Lula ao poder. O ciclo se fechou — não por acaso, mas por esgotamento de alternativas e pela necessidade mútua de um “inimigo funcional”. A polarização da opinião pública deixou de ser um acidente e passou a ser um ativo político, manipulável e orquestrável.
Diante disso, a esquerda que hoje governa sabe que sua força eleitoral não se sustenta apenas por méritos próprios, mas pela existência de um adversário que assuste mais do que convença. Para um eventual segundo mandato de Lula, o desafio não é eliminar o bolsonarismo, mas continuar a domesticá-lo. Não destruí-lo, mas moldá-lo em uma versão previsível, ruidosa e controlável — um antagonista que mantenha a base mobilizada sem ameaçar a estabilidade institucional ou a hegemonia do campo progressista.
Nesse contexto, a esquerda tende a agir em três frentes simultâneas:
- manter viva a memória do bolsonarismo radical, associando qualquer nova liderança àquilo que o eleitor urbano, moderado e institucional rejeita: caos, autoritarismo e instabilidade. Esse discurso não precisa ser permanente, apenas oportuno, acionado nos momentos certos.
- a segunda frente é mais sutil: permitir que uma direita barulhenta sobreviva, desde que seja politicamente inofensiva. Uma direita que grite, marche, provoque e gere engajamento nas redes, mas que não construa pontes reais com o centro político, com o empresariado mais pragmático ou com setores decisivos do eleitorado. Em outras palavras, uma direita que ruga — mas não morda.
- a terceira envolve o controle do tempo: A esquerda sabe esperar. Sabe quando tensionar e quando silenciar. Sabe quando uma crise ajuda e quando atrapalha. Por isso, não surpreende que certos personagens recebam mais holofotes do que outros, nem que determinadas narrativas sejam amplificadas enquanto alternativas mais moderadas da direita permanecem à margem.
Nesse tabuleiro, o adversário ideal não é o que pode vencer, mas o que pode ser usado. Um “Bolsonaro possível”, menos imprevisível, menos disruptivo e mais dependente da própria polarização para existir. Alguém que mobilize afetos, mas não organize maiorias; que provoque reações emocionais, mas não ofereça um projeto competitivo de poder.
Nada disso exige conspirações explícitas ou acordos formais. A política opera muito bem apenas com incentivos, sinais e permissões tácitas. Cada campo joga com as peças que tem — e, muitas vezes, com as peças do adversário.
Se esse roteiro se confirmar, a pergunta central para os próximos anos não será quem grita mais alto, mas quem está sendo funcional a quem. Porque, no fim das contas, o maior risco para qualquer projeto de poder não é o inimigo que se enfrenta, mas o adversário que deixa de ser útil.
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