Durante décadas, ouvimos que bastava estudar, trabalhar duro e “vencer na vida”. Mas será que essa promessa ainda funciona?
Um novo debate ganhou força na Europa e começa a fazer sentido também no Brasil: a chamada “herançocracia” — uma sociedade onde o sucesso depende mais do patrimônio da família do que do esforço individual.
A expressão foi popularizada pela historiadora britânica Eliza Filby, autora do livro Inheritocracy. A ideia é provocadora: vivemos menos numa meritocracia (onde vence quem se esforça mais) e mais num sistema em que ter acesso ao “banco da mamãe e do papai” faz toda a diferença.
🏠 Comprar casa: trabalho ou ajuda da família?
Segundo a autora, hoje pessoas com menos de 45 anos têm mais chance de comprar um imóvel com ajuda dos pais do que apenas com a própria renda.
E aqui vale uma pergunta direta ao leitor catarinense:
👉 Quantos jovens conseguem comprar casa em cidades como Florianópolis, Balneário Camboriú ou até mesmo em municípios menores, sem ajuda da família?
Mesmo no interior, onde os preços são menores que no litoral, o custo de construção, terrenos e financiamentos subiu muito nos últimos anos. Ao mesmo tempo, salários não acompanharam na mesma proporção.
Resultado?
Muitos jovens continuam morando com os pais até perto dos 30 anos — não por comodismo, mas por necessidade.
🎓 Universidade deixou de ser garantia de estabilidade
Durante a geração dos chamados “baby boomers” (nascidos entre 1946 e 1964), estudar era quase sinônimo de ascensão social. O mundo vivia crescimento econômico, crédito mais acessível e mercado em expansão.
Hoje a realidade é diferente.
- Mais pessoas têm diploma.
- O custo da formação é alto.
- A concorrência aumentou.
- E o mercado já não garante estabilidade como antes.
No Brasil, isso também é visível: muitos jovens formados enfrentam dificuldade para conseguir emprego na área ou recebem salários que mal cobrem as despesas básicas.
👨👩👧 A família virou rede de segurança
Com o Estado mais limitado e o mercado instável, quem segura a barra?
A família.
No Reino Unido, chamam isso de “Banco da Mamãe e do Papai”. No Brasil, isso sempre existiu — mas agora se tornou ainda mais central.
Em Alfredo Wagner e em tantas cidades do interior catarinense, isso aparece de várias formas:
- Pais ajudando no financiamento da casa;
- Avós cuidando dos netos para que os pais possam trabalhar;
- Filhos adultos morando com os pais para economizar;
- Famílias dividindo despesas para fechar o mês.
Não é luxo. É sobrevivência.
⚖ O problema: nem todos têm esse “banco”
A grande questão levantada pela autora é simples:
Se a estabilidade depende da família, quem nasce em família com poucos recursos já começa atrás.
Isso amplia desigualdades.
Em uma sociedade baseada na herança — não apenas de dinheiro, mas de patrimônio, casa própria, contatos e estabilidade — o ponto de partida pesa cada vez mais.
💍 Até o casamento muda
Um efeito curioso apontado no estudo é que jovens passaram a considerar mais a compatibilidade financeira ao escolher parceiros.
Ou seja: não é só amor — é também segurança.
Duas pessoas que vêm de famílias estruturadas financeiramente tendem a formar laços com menos risco econômico.
🤔 E o que isso significa para o Brasil?
No nosso país, a desigualdade sempre foi forte. Mas o debate sobre herançocracia traz uma reflexão incômoda:
📌 Será que ainda podemos dizer aos jovens que “basta se esforçar”?
Ou estamos entrando numa fase em que patrimônio familiar pesa mais que talento?
🌱 Um olhar para o interior
Em cidades menores como Alfredo Wagner, ainda existe algo valioso: rede comunitária, custo de vida relativamente menor e possibilidade de empreender com menos capital inicial do que nas capitais.
Mas mesmo aqui, construir casa, investir em negócio ou manter filhos na faculdade exige cada vez mais apoio familiar.
A diferença é que, no interior, essa ajuda muitas vezes não aparece como dinheiro no banco — mas como:
- terreno cedido pelos pais,
- material de construção comprado aos poucos,
- mão de obra da própria família,
- apoio na lavoura ou no comércio.
Isso também é “banco da família”.
📉 Quando o esforço deixa de ser suficiente
O alerta da autora é sério:
Quando uma sociedade começa a acreditar que o esforço não garante avanço, algo mais profundo se fragiliza — a confiança no futuro.
E sem confiança, aumentam:
- frustração,
- polarização,
- descrédito nas instituições.
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