Como a experiência em gestão de grandes projetos levou método, tecnologia e previsibilidade ao agronegócio
A entrada de executivos urbanos no agronegócio costuma ser cercada de romantização. Mas, no caso da arquiteta e empresária Bárbara Kemp, o caminho foi outro: choque de realidade, falta de estrutura, escassez de mão de obra e decisões tomadas longe de qualquer manual.
Essa experiência é narrada no capítulo que a empresária acaba de lançar no livro Mulheres no Agronegócio – Vol. II, publicado no último dia 27, em que ela conta como deixou a lógica acelerada das cidades para viver, na prática, os desafios do campo — e como essa travessia transformou sua forma de enxergar gestão, tempo e negócios.
Com mais de 30 anos de atuação no mercado, Bárbara é cofundadora da Kemp, empresa brasileira especializada em projetos e gerenciamento de múltiplas obras simultâneas, com atuação em grandes operações de varejo, serviços e infraestrutura. Ao longo da carreira, liderou centenas de projetos em diferentes regiões do país, sempre com foco em método, padronização e controle de custos.
No livro, no entanto, ela se distancia da trajetória corporativa tradicional para contar uma vivência pessoal e profissional no agro, iniciada ainda antes da pandemia e intensificada durante o período mais crítico da crise sanitária.
Do imediatismo urbano ao ritmo do Agro
No relato, Bárbara descreve o contraste entre o tempo da cidade — marcado por decisões rápidas, cronogramas rígidos e pressão constante — e o tempo do campo, onde processos são mais longos, dependem do clima, da natureza e de fatores fora do controle humano.
“Aquilo que, na cidade, é para ontem, no agro é para daqui anos”, escreve a autora, ao narrar a implantação de um pomar e a construção de um galpão de beneficiamento da fruta em uma região rural do Sul do país.
O projeto, que parecia simples no papel, revelou entraves comuns ao agronegócio brasileiro: demora na liberação de licenças, falta de mão de obra qualificada, dificuldades logísticas, infraestrutura limitada e ausência de processos claros de gestão. Em determinado momento, a máquina chegou a ficar pronta antes do galpão que deveria abrigá-la.
Sem romantização, o livro mostra uma empresária que precisou colocar a mão na massa, acompanhar de perto a obra, o plantio, a logística e a rotina do campo, assumindo decisões que impactavam diretamente o resultado do negócio.
Quando a experiência da obra vira ferramenta no campo
Foi a partir desse choque que Bárbara identificou uma oportunidade pouco explorada no agro: a aplicação de métodos de gestão típicos da construção civil em propriedades rurais.
Acostumada a lidar com cronogramas complexos, múltiplos fornecedores, controle de orçamento e acompanhamento em tempo real de obras urbanas, ela passou a adaptar essas ferramentas à realidade rural. Reuniões de acompanhamento, controle por atividade, análise de custos, indicadores e gestão de prazos começaram a fazer parte da rotina no campo.
“O agro não precisa de mais improviso. Precisa de método”, resume a empresária em um dos trechos do livro.
Essa experiência foi decisiva para o desenvolvimento do Workemp, plataforma criada originalmente para organizar, gerenciar e dar previsibilidade a obras complexas, e que hoje vem sendo adaptada para atender operações do agronegócio, propriedades rurais e projetos produtivos no campo.
Tecnologia como meio, não como fim
No livro, Bárbara reforça que a tecnologia só faz sentido quando está a serviço do processo — e não o contrário. No campo, isso se traduziu em sistemas de controle de atividades, monitoramento da produção, organização de dados e apoio à tomada de decisão, respeitando o ritmo da natureza, mas reduzindo desperdícios e incertezas.
A lógica é a mesma que orienta a Kemp há décadas: grande parte dos problemas de custo, atraso e perda de eficiência nasce antes da execução, na ausência de planejamento e método.
“Transformar experiência em processo foi o que permitiu sair do improviso e construir um negócio mais previsível”, relata.
Uma narrativa que conecta mercado, agro e liderança
Mais do que um relato pessoal, o capítulo de Bárbara Kemp dialoga diretamente com debates atuais do agronegócio: sucessão, profissionalização da gestão, escassez de mão de obra, uso consciente de tecnologia e necessidade de decisões baseadas em dados.
Ao trazer a perspectiva de quem veio da cidade, passou pelo choque do campo e construiu pontes entre esses dois mundos, o livro contribui para uma discussão cada vez mais relevante: como unir eficiência, respeito ao tempo da natureza e sustentabilidade econômica.
A história também se conecta à trajetória da Kemp, empresa que hoje leva essa mesma lógica de método, processo e controle para diferentes setores — da construção ao agro — mostrando que gestão não é uma questão de setor, mas de mentalidade.

Liliane Luchin
economidia.com.br
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