Quando penso no Nordeste, não penso apenas na geografia marcada pelo sol forte ou pela resistência histórica à seca. Penso em um celeiro vivo de inteligência, sensibilidade e grandeza humana. Penso em nomes como Paulo Freire, que revolucionou a pedagogia no mundo; Ariano Suassuna, que transformou o sertão em literatura universal; Josué de Castro, que denunciou a fome como construção política; Rachel de Queiroz, pioneira na Academia Brasileira de Letras; e Celso Furtado, que pensou o desenvolvimento do Brasil a partir das nossas desigualdades regionais. O Nordeste nunca foi periferia do pensamento; foi e continua sendo fonte de inteligência resistente.
Eu mesmo vivi, em 2024, uma cena que sintetiza essa grandeza silenciosa. Saía de uma palestra de duas horas na rádio da universidade de Quixadá, no interior do Ceará, enquanto a emissora promovia uma campanha nacional de arrecadação para ajudar os desabrigados das enchentes no Rio Grande do Sul. O país acompanhava, consternado, a tragédia. E foi ali, naquele momento simples, que vi o Nordeste revelar sua face mais verdadeira: uma senhora humilde, carregando duas sacolas de mantimentos, aproximou-se para fazer sua doação. Não havia câmeras buscando aplausos, não havia discursos inflamados; havia gesto. Havia compaixão concreta.
Aquilo me emocionou profundamente. Enquanto, não raras vezes, escutamos discursos de ódio e preconceito vindos de alguns setores do Sul contra o povo nordestino – estigmatizado injustamente como atrasado ou dependente – eram justamente mãos nordestinas, calejadas e generosas, que se estendiam primeiro em solidariedade. O Nordeste, tantas vezes alvo de caricaturas, respondia com humanidade. E essa humanidade não se aprende em manuais de civilidade; ela nasce da experiência histórica de quem sabe o que é lutar, perder, resistir e recomeçar.
O Nordeste é celeiro porque produz pensamento crítico, literatura vigorosa, ciência social transformadora; mas é celeiro também de valores. A inteligência nordestina não está apenas nos livros e nas universidades; ela está na ética da partilha, na consciência coletiva, na capacidade de enxergar o outro como extensão de si. Talvez seja essa a nossa maior genialidade: transformar dor em empatia, escassez em generosidade e preconceito recebido em solidariedade oferecida.
Minha literatura teve seu reconhecimento áureo aqui no Nordeste. Premiou minhas obras e ainda me colocou na Academia Independente de Letras, como imortal. De modo que naquele dia, saindo da rádio em Quixadá, eu compreendi algo ainda mais profundo sobre minha própria história e identidade: pertenço a uma terra que pensa, cria e sente grande. Uma terra que não responde ao desprezo com rancor, mas com ajuda. E isso, para mim, é a mais elevada forma de inteligência social e humana que um povo pode demonstrar. O Nordeste é, sim, um celeiro de Gênios e de solidariedade!
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