Expansão dos pagamentos eletrônicos intensifica desafios para o setor de cobrança e reforça a necessidade de planejamento financeiro
O valor total movimentado pelos brasileiros por meio de cartões somou R$ 1,1 trilhão no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 8,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo balanço divulgado nesta segunda-feira, 11, pela Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços). O resultado reforça a consolidação dos meios eletrônicos de pagamento na rotina do consumidor, puxado sobretudo pela expansão das transações por aproximação, compras online e pelo uso do crédito no consumo do dia a dia.
Na análise por modalidade, o cartão de crédito liderou tanto em volume quanto em crescimento: foram R$ 810,2 bilhões movimentados, alta de 12,8% em relação ao mesmo período de 2025. O débito seguiu caminho oposto, com R$ 236 bilhões e queda de 2,4%, enquanto o cartão pré-pago registrou R$ 94,5 bilhões, crescimento de 1%, movimento que sinaliza uma migração do consumidor brasileiro para o crédito como principal meio de pagamento.
Embora a evolução indique maior digitalização e dinamismo da economia, ele também acende um alerta para a elevação da exposição financeira das famílias. Em um cenário ainda marcado por juros elevados em diversas modalidades de crédito, o uso recorrente do cartão pode intensificar o risco de endividamento, especialmente entre consumidores com menor capacidade de planejamento financeiro.
“O cartão trouxe praticidade e ampliou o acesso ao consumo, mas também exige mais responsabilidade financeira. Quando o crédito passa a ser utilizado para equilibrar despesas do dia a dia, o risco de inadimplência cresce e o setor precisa estar preparado para lidar com esse cenário de forma mais estratégica”, afirma Rodrigo Mandaliti, presidente do IGEOC.
Segundo ele, o movimento também acelera a transformação das operações de cobrança, que passam a depender cada vez mais de tecnologia, inteligência de dados e personalização no contato com o cliente. “Hoje, não faz mais sentido trabalhar apenas com volume de contatos. O desafio está em construir abordagens mais inteligentes, respeitosas e alinhadas à realidade financeira de cada consumidor, elevando as chances de negociação”, destaca.
Pequenas medidas de organização financeira ajudam a evitar o acúmulo de dívidas: acompanhar gastos recorrentes, evitar parcelamentos excessivos e priorizar o pagamento integral da fatura sempre que possível.
Em paralelo, empresas do setor vêm investindo em ferramentas de inteligência artificial e análise de dados para tornar a comunicação com o consumidor mais eficiente e menos invasiva.
O crescimento dos cartões, nesse sentido, impõe uma reflexão inevitável ao mercado. “Os números do primeiro trimestre mostram que crescer no crédito sem fortalecer o planejamento financeiro do consumidor é adiar um problema que, mais cedo ou mais tarde, chega à mesa de todo o setor. Crédito sustentável não é menos crédito, é saber utilizar com mais consciência”, conclui Mandaliti.
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