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Eu fui testemunha ocular do fenômeno do “sucesso fantasma” no cinema brasileiro. Anos atrás, ganhei um ingresso de cortesia para assistir a O Que É Isso, Companheiro?. Se tivesse que pagar eu não iria… Ao entrar no cinema, deparei-me com um cenário desolador: fileiras e mais fileiras de poltronas completamente vazias. Até parecia uma sessão reservada para mim e meus amigos.
No entanto, bastou ligar a televisão nos dias seguintes para ver os telejornais anunciarem, com pompa, que o longa era um estrondoso “sucesso de bilheteria”. Mal imaginava eu que a estratégia poderia se repetir anos depois.
Essa experiência pessoal não foi um caso isolado, mas o retrato fiel de uma velha máxima que impera nos bastidores do poder: em Brasília, nada se cria, tudo se replica. Enquanto o debate público se desgasta nas redes sociais discutindo o viés ideológico de Dark Horse, a superprodução sobre a vida de Jair Bolsonaro, o verdadeiro xeque-mate da obra não se dará na preferência espontânea do espectador, mas em uma engrenagem comercial muito bem testada no passado: a bilheteria artificial.
O clássico de 1997, baseado na obra de Fernando Gabeira sobre o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, alcançou o topo do cinema nacional e chegou à indicação ao Oscar. Contudo, longe dos tapetes vermelhos, o segredo de sua robustez comercial residiu em uma operação de bastidores. Para garantir que a narrativa ganhasse as massas, o filme foi amplamente impulsionado por exibições patrocinadas, compras corporativas e pacotes sindicais que distribuíam ingressos gratuitamente. O espectador não precisava pagar; o sistema pagava por ele.
Quase três décadas depois, a receita para transformar Dark Horse em um fenômeno de público promete seguir rigorosamente a mesma cartilha.
A Mecânica do Atacado Político
Para os investidores que aportaram dezenas de milhões de reais — sob a sombra de investigações que agora rondam o STF e o Banco Master —, o fracasso de público nas semanas de estreia seria um desastre político irreparável. Por isso, o modelo de negócios de uma obra desse calibre não depende do cidadão comum que tira o dinheiro do bolso na bilheteria do shopping. O lucro e o impacto eleitoral são garantidos no atacado, e por atacado entendemos: dinheiro público.
A engrenagem opera por meio de redes aliadas: prefeituras alinhadas, secretarias de cultura municipais, entidades patronais, sindicatos e empresários simpáticos à causa. Compram-se salas inteiras. Adquirem-se lotes massivos de ingressos sob a justificativa de “fomento à cultura” ou “ações pedagógicas”, distribuídos gratuitamente em igrejas, associações e repartições.
Para o exibidor, pouco importa se a poltrona estará ocupada por um espectador atento ou se o bilhete vai expirar na gaveta de algum servidor público: o ingresso foi pago, o faturamento foi computado e o ranking da Ancine registrará o recorde. Cria-se a manchete perfeita para as redes sociais às vésperas do primeiro turno.
O Efeito Colateral: A Fadiga do Espectador
Contudo, se a logística para inflar os números é infalível, o comportamento do eleitor em 2026 é uma variável perigosa. Ao contrário do contexto de 1997, o cenário atual é marcado por uma polarização extrema e um bombardeio digital ininterrupto.
Ao arrastar o filme para o centro de um tiroteio jurídico no STF meses antes da estreia, os idealizadores anteciparam o espetáculo político. O resultado é o cansaço precoce. Em meados de setembro, no auge do horário eleitoral e das disputas municipais, o eleitor médio estará saturado.
Tentar empurrar uma superprodução de duas horas goela abaixo do público — mesmo que de graça — corre o risco de gerar o efeito inverso: a rejeição por pura exaustão. A montanha de dinheiro submersa na capital federal garante a produção e compra os assentos, mas nem mesmo o maior esquema de distribuição gratuita consegue comprar o interesse genuíno de um eleitorado que já dá sinais de cansaço antes mesmo de as luzes do cinema se apagarem.
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