Com importados mais baratos e consumo digital em alta, especialista alerta para o risco de endividamento entre a geração que compra pelo celular
A decisão de encerrar a cobrança da chamada “taxa das blusinhas” sobre compras internacionais de até US$ 50 reacendeu discussões sobre o avanço do consumo digital no Brasil e seus impactos no orçamento, especialmente entre os consumidores mais jovens. Com produtos importados mais acessíveis e maior facilidade de acesso às plataformas estrangeiras, a tendência é de crescimento nas compras online, principalmente entre públicos já habituados ao parcelamento, ao consumo por impulso e ao uso frequente do crédito. Aplicativos de compra, campanhas personalizadas e redes sociais criaram um ambiente de estímulo constante, no qual promoções relâmpago, tendências virais e ofertas com sensação de urgência incentivam escolhas impulsivas de consumo.
O número de jovens endividados no Brasil dobrou em oito anos, saltando de 13,7 milhões para 27,6 milhões, segundo o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central. O levantamento também revela que a inadimplência entre jovens supera a registrada entre adultos e idosos, independentemente da faixa de renda, evidenciando um público mais vulnerável ao desequilíbrio financeiro diante do acesso facilitado ao crédito e ao consumo digital.
“Essa situação conversa diretamente com a nova geração, que já está acostumada a consumir quase tudo no ambiente digital. Isso é positivo do ponto de vista da praticidade e do acesso, mas também exige mais atenção, porque hoje o consumo é muito influenciado pelas redes sociais. Plataformas como Shein, Shopee e, mais recentemente, o TikTok Shop ganham força justamente por transformar conteúdos e recomendações de influenciadores em compras imediatas. O jovem está deslizando a tela, vê um produto sendo usado ou indicado e consegue comprá-lo em poucos segundos, muitas vezes sem refletir sobre o impacto financeiro daquela decisão”, afirma Rodrigo Mandaliti, presidente do IGEOC.
Segundo o especialista, o desafio está em equilibrar conveniência e consciência financeira em um ambiente construído para eliminar a hesitação do consumidor. “O acesso facilitado ao consumo exige mais educação financeira e maior entendimento sobre limites. Pequenas compras recorrentes podem parecer inofensivas isoladamente, mas, no acumulado, comprometem o orçamento e alimentam ciclos de endividamento”, destaca.
O cenário reforça a necessidade de ampliar discussões sobre formação financeira e comportamento de consumo, especialmente entre os nativos digitais, que convivem com estímulos permanentes de compra e plataformas que exploram a sensação de urgência e pertencimento. “Ainda na escola, muitos jovens já utilizam Pix, cartão de crédito, aplicativos financeiros e compras parceladas, mas sem uma base sólida sobre orçamento, planejamento, adiamento de consumo e percepção do custo real da dívida. Mais do que acesso à informação, o desafio está na formação para a tomada de decisão financeira consciente”, conclui Mandaliti.
Para uma geração que cresceu nesse ambiente, a dificuldade de poupar e a vulnerabilidade ao consumo impulsivo são consequências quase inevitáveis. O alerta é claro: o jovem entra cedo demais no sistema financeiro e tarde demais na educação financeira, e dar mais atenção a esse público é, hoje, o desafio central do setor.
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