Especialista em desenvolvimento estudantil explica por que o foco deveria estar em método e personalização, não em tempo acumulado
“Estuda mais.” A frase é uma das mais ouvidas por estudantes em casa, especialmente entre os que se preparam para o ENEM, e ganha peso ainda maior na chegada das férias. Mas, mesmo quando os pais veem os filhos estudando mais horas, o resultado nem sempre aparece. Para a neurociência da aprendizagem, o motivo é mais simples do que parece: o que diferencia quem aprende de fato não é o total de horas acumuladas, e sim como esse tempo é usado.
Estudo publicado em 2025 na revista Psicologia da Educação, da PUC-SP, pelo pesquisador Antonio Jaeger, da Universidade Federal de Minas Gerais, mostra que a retenção de conteúdos é mais eficiente quando a revisão ocorre de forma espaçada ao longo do tempo, e não concentrada em longas sessões de estudo. Nesse processo, os intervalos fazem parte da aprendizagem.
A explicação está na forma como o cérebro consolida memórias. Durante o repouso, especialmente no sono, as informações estudadas são organizadas e transferidas para conexões mais duradouras. Quando esse ciclo é interrompido, a fixação do conteúdo também é prejudicada.
Para Victor Cornetta, especialista em desenvolvimento estudantil e fundador da Kaizen Mentoria, a cultura da exaustão ainda leva muitos jovens e muitas famílias a tratar horas de estudo como sinônimo de aprendizado. “Nunca foi sobre quantidade. Foi sempre sobre qualidade. O problema é que alunos e pais passam a olhar como objetivo as horas de estudo, e não o que realmente está sendo consolidado ao longo do tempo”, afirma.
Segundo ele, generalizações sobre tempo ideal de estudo costumam falhar. “Estudar mais ou estudar menos depende de como a pessoa está estudando, do nível de conhecimento que ela já tem sobre o assunto, da matéria, do ano que ela cursa, da dificuldade dela. O que vai ser mais eficiente é sempre a personalização a partir da necessidade de cada um”, explica.
Há também um equívoco comum sobre quando o efeito desse modelo aparece. A ideia de que estudar mal “se paga” na próxima prova, segundo Cornetta, não corresponde ao que acontece de fato. “O aluno que estuda de véspera pode até tirar uma nota boa na prova seguinte. O problema vem depois, nos próximos assuntos, nas próximas matérias. Quando o resultado ruim finalmente aparece nas notas, o problema já vinha se acumulando há muito tempo”, destaca. Como o conteúdo escolar é cumulativo e cada matéria nova se apoia na anterior, estudar de um jeito que não ajuda o cérebro a fixar o que foi visto compromete justamente o que vai ser exigido adiante.
A questão divide famílias todos os anos, e a resposta raramente é simples. Para Cornetta, não existe uma fórmula única.
“Férias são importantes para a saúde mental e não faz sentido recomendar que todo aluno estude todos os dias. Por outro lado, abandonar completamente a rotina também pode dificultar a retomada das atividades. O mais importante é que o estudante tenha clareza sobre seus objetivos e se organize de acordo com as próprias necessidades e desafios”, orienta.
Sessões bem distribuídas, sono regular, pausas planejadas e técnicas que ajudem a memória a operar a longo prazo tendem a gerar resultados mais consistentes do que maratonas seguidas de esgotamento. “O equilíbrio está em entender quando é necessário estudar, desenvolver uma metodologia que sustente o aprendizado de verdade e construir uma rotina em que ele consiga descansar sem pensar no estudo e estudar sem pensar no descanso”, conclui.
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