Direto de Brasília para o Jornal Alfredo Wagner Online
O ventilador parado no canto da barbearia da Asa Norte indicava que a temperatura em Brasília não passaria dos 25 graus. Na TV presa à parede, um programa esportivo tentava falar de futebol, mas ninguém prestava atenção. Aqui, política sempre invade qualquer assunto.
O barbeiro ajeitou a navalha, olhou pelo espelho e puxou conversa.
— Rapaz… vocês viram a confusão entre Michelle e Flávio Bolsonaro?
Sentado no sofá aguardando minha vez com um café na mão, dei uma risadinha:
— Vi. E aquilo não foi uma simples briga de família. Foi disputa de poder em rede nacional, mas na minha opinião tudo para um final feliz. É como novela da Globo: os casais começam brigando entre si e num certo momento estratégico unem-se com amor
Pedro, cliente antigo, mexendo no celular, levantou os olhos.
— É briga das grandes. O que está acontecendo ali é a disputa pela herança política do bolsonarismo.
Juliana, que acabava de entrar com bloco e celular na mão, se aproximou.
— O mais interessante nem foi a briga em si. Foi a forma. Michelle apareceu com um discurso preparado, articulado, sem improviso. Aquilo foi calculado.
O cliente na cadeira riu.
— Quer dizer que a coisa ficou séria?
— Muito séria. — Respondi — Até agora, muita gente tratava Michelle como figura decorativa. Mas o vídeo mostrou outra coisa: ela quer protagonismo.
Pedro concordou.
— E isso muda o jogo. Porque Flávio vinha tentando se consolidar como herdeiro político natural do pai.
Por alguns segundos, houve silêncio.
Só o barulho da máquina de cortar cabelo.
Dei um sorriso de canto, pois já tinha visto aquele roteiro antes.
— Vou dizer a vocês uma coisa… isso tudo pode ser briga de verdade, mas também pode ser só novela.
O barbeiro ergueu a sobrancelha.
— Novela?
Tomei um gole de café e continuei:
— Claro. Igual novela da Globo. O roteiro começa com o casal principal sempre em briga, um com o outro, mágoa, traição, ódio de morte.
Pedro já entendeu onde ele queria chegar.
— E no meio da novela…
— …os dois percebem que separados perdem força.
Juliana cruzou os braços.
— E juntos?
Sorrí.
— Juntos viram chapa.
O cliente riu alto.
— Michelle e Flávio, na mesma chapa?
Confirmei.
— Por que não? Ela traz mulheres, evangélicos e imagem de renovação. Ele carrega o sobrenome, a estrutura partidária e o eleitor fiel.
Pedro balançou a cabeça.
— Faz sentido.
Olhei para a TV e concluí meu mensamento.
— No fim, essa briga pode estar servindo para uma coisa: manter ambos em evidência, desviando de bancos e investigações.
Juliana comentou:
— Enquanto todo mundo discute o conflito…
Pedro concluiu:
— …ninguém tira os olhos deles.
O barbeiro desligou a máquina.
— Rapaz… então estamos vendo política ou teatro?
Sorrí.
— Em Brasília?
…
— Quase sempre os dois.
Direto de Brasília para o Jornal Alfredo Wagner Online. Até a próxima!
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