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A visita do presidente Lula a Santa Catarina produziu um efeito político curioso — talvez até oposto ao pretendido na superfície.
Ao subir o tom contra o governador Jorginho Mello, o presidente não apenas atacou um adversário regional. Fez algo maior: colocou o governador catarinense no centro do debate nacional.
Em política, isso raramente é irrelevante.
Ser ignorado é uma forma de enfraquecimento. Ser citado, atacado e transformado em alvo por um presidente da República é, goste-se ou não, um reconhecimento de peso político.
A pergunta que emerge dos bastidores é inevitável: Lula veio a Santa Catarina apenas para criticar Jorginho ou para algo mais sofisticado?
Talvez estejamos diante de uma manobra política mais refinada do que parece.
A eleição presidencial de 2026 ainda procura seu desenho definitivo. A direita segue em reorganização. O campo conservador possui força eleitoral, mas ainda não encontrou com clareza uma liderança nacional capaz de unificar discurso, base militante e competitividade eleitoral.
Jair Bolsonaro continua sendo a principal referência da direita, mas as limitações jurídicas e institucionais tornam o cenário incerto. Outros nomes circulam, mas nenhum parece, até aqui, reunir carisma, identidade ideológica e capacidade de mobilização total.
É nesse vazio que surge uma hipótese intrigante.
E se Lula estiver ajudando — conscientemente ou não — a construir o adversário ideal?
Não um adversário que necessariamente o derrote, mas um adversário útil para reorganizar a polarização.
Jorginho Mello possui características que chamam atenção nesse tabuleiro. É identificado com o bolsonarismo, fala diretamente com a base conservadora, provoca reação imediata na esquerda e governa um estado historicamente refratário ao PT.
Além disso, carrega uma vantagem política importante: ainda é uma liderança regional em processo de nacionalização.
E talvez esteja justamente aí o ponto central.
Cada crítica de Lula, cada ironia, cada ataque verbal eleva Jorginho a um novo patamar de visibilidade.
O governador deixa de ser apenas o líder político de Santa Catarina. Passa a ser visto nacionalmente como um nome que incomoda o Palácio do Planalto.
Isso tem enorme valor político.
Na prática, o embate fortalece os dois.
Lula reforça seu discurso de enfrentamento à direita ideológica. Jorginho fortalece sua imagem de opositor ao PT.
É um conflito que mobiliza bases, aquece militâncias e reorganiza narrativas.
Sob essa ótica, a visita presidencial a Santa Catarina ganha contornos ainda mais interessantes.
Talvez Lula não tenha vindo apenas para cobrar, atacar ou responder críticas. Talvez tenha vindo também para medir, testar e, de certa forma, posicionar um nome no tabuleiro nacional.
Porque eleições presidenciais não se constroem apenas pela força de um candidato.
Também se constroem pela escolha — explícita ou implícita — do adversário.
E poucos entendem esse jogo tão bem quanto Lula.
Santa Catarina, que historicamente aparece como território hostil ao PT, pode ter se tornado palco de algo maior: o início da construção de uma nova polarização nacional.
Se isso estiver acontecendo, o episódio em Itajaí talvez seja lembrado no futuro não apenas como mais um discurso inflamado.
Mas como o momento em que Lula acendeu, talvez sem querer — ou talvez exatamente querendo — o holofote nacional sobre Jorginho Mello.
Na política, nem sempre os adversários são apenas obstáculos.
Às vezes, são peças fundamentais para o jogo de ambos.
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